DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO
Todo o desenvolvimento dos planos ocorreu por videoconferência DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO

Caminhos de um jornal em construção

Foram 4 anos de testes e avanços para se chegar ao ‘Estadão’ que começa domingo

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 05h00

O leitor recebeu em casa um envelope lacrado. A instrução era para que ele o abrisse apenas em um momento específico, durante uma videoconferência com pesquisadores e diretores do Grupo Estado. Foi só então que ele teve em mãos o seu jornal de todo dia, porém em um formato completamente diferente.

Mas para chegar até o leitor esse novo Estadão percorreu um longo caminho. Podemos olhar para o ano de 2017 – quando uma reestruturação da empresa e a sua transformação digital teve início. Os primeiros passos na modernização do grupo e na reestruturação da produção de conteúdo foram dados há quatro anos. Em 2020, com a presença da consultoria Mckinsey, esse movimento, chamado de Estadão 3.0, intensificou-se.

“A gente estava neste processo quando veio a pandemia. A primeira ação da empresa foi cuidar das pessoas. Todos foram para casa. Nos adaptamos bem à situação. E, apesar do distanciamento, todos os planos de mudança continuaram”, contou o editor-chefe do jornal, David Friedlander. 

Seguiram-se as mudanças em todas as áreas da empresa, até que uma questão foi levantada: se estamos mudando e modernizando processos, por que não olhar para o nosso carro-chefe, o jornal impresso? Logo nas primeiras discussões ficou claro aquilo que sempre foi inegociável: a qualidade e a profundidade do conteúdo teriam de permanecer intactas quaisquer que fossem as novidades.

Foi então que, em novembro do ano passado, o editor executivo Multimídia, Fabio Sales, começou a estudar o que havia de alternativas para o formato do jornal. Experiências internacionais mundo afora, como casos do La Nación (Argentina), El Comercio (Peru) e o The Guardian (Inglaterra), serviram de base para as pesquisas de Sales e equipe. Ainda naquele início juntou-se ao time o designer e jornalista Chico Amaral (agência Tric), que já havia sido responsável pelo redesenho do próprio Estadão, em 2010, e de outros jornais no Brasil e pelo mundo.

Amaral vive e trabalha em Barcelona. Sem a possibilidade de viagens intercontinentais (por causa da pandemia), todas as reuniões, apresentações e trocas de arquivo foram feitas por videoconferência – com participantes em Espanha, Argentina e Brasil. “O Fabio Sales foi quem conduziu esse diálogo. Com o fuso horário de 5 horas (a mais), eu era a primeira pessoa com quem ele conversava no dia, ainda no café da manhã”, brinca Amaral.

Oito cenários

Sales e equipe trabalharam com oito cenários possíveis, que iam de um redesenho puro e simples do jornal que existia a alternativas de tamanho e modelos híbridos. “Fizemos simulações para ver o que valia a pena. O Estadão é um jornal centenário, com público cativo e que tem uma relação de amor com a marca. Tínhamos de saber se a mudança não teria um impacto negativo, principalmente entre leitores mais antigos” ponderou Sales.

Uma série de testes com leitores foi feita nos últimos meses. O formato escolhido foi o germânico (ou Berliner), que tem 28 centímetros de largura por 43 de altura. “A resposta dos leitores foi muito positiva. Primeiro, notando que não houve perda de conteúdo. Depois, viram-se beneficiados com um jornal mais fácil de levar a todos os lugares”, resumiu Sales.

Para Amaral, um formato mais compacto “se encaixa no ambiente da nova relação dos usuários com os jornais”. “O leitor vai reconhecer no novo formato tudo aquilo que ele sempre admirou no Estadão.”

A complexidade da operação envolveu todas as áreas do jornal. Para além da redação, a gráfica, o departamento comercial, o mercado leitor e outras estiveram presentes no passo a a passo da transformação. Com 45 anos de empresa, o diretor industrial Odair Bertoni lembra que essa foi a terceira vez que uma mudança de formato foi cogitada. A primeira reação de Bertoni, quando soube da mudança, foi de desconfiança. “Mas essa perspectiva mudou quando vi todo o comprometimento da empresa com esse passo”, afirmou. “O Estadão vai mudar. Vai ficar mais leve e contemporâneo, mas sem perder sua essência.”

O coordenador de sistemas editoriais, Fábio Britto, prevê que o fechamento das páginas mudará um pouco. “Antes, cada página era concluída individualmente. Agora, serão fechadas em dupla – de acordo com o formato do novo jornal”, avisou. “Estou feliz com essa sensação de renovação. Quem trabalha em jornal já cansou de ouvir que essa é uma mídia que vai morrer. Não, não vai. Ao contrário, vai nascer de novo.” E o diretor de Conteúdo e Operações do Blue Studio, Luís Fernando Bovo, se diz impressionado com a resposta dos leitores às mudanças. “O que a gente ouviu foi que o Estadão não é a forma. É o conteúdo. Ele está olhando para o novo hábito de consumo, para a sustentabilidade e para o futuro.”

Para a diretora do Mercado Leitor, Debora Huertas, esse foi “um projeto construído em equipe”, que “ouviu a voz do cliente”. Ela acompanhou os testes e avalia: “Vi a cara do nosso leitor quando segurava o jornal pela primeira vez. Ao folheá-lo, ao entender as mudanças, a aprovação foi geral e visível no rosto de cada um”.

*

Um novo Estadão vem aí

A versão impressa do Estadão será renovada a partir do próximo domingo, 17.  Com base nas expectativas dos leitores, ouvidos durante os 11 meses do projeto de transformação, o novo impresso terá inovações no conteúdo, com novas seções que priorizam o aprofundamento e o contexto dos fatos. Como resultado das pesquisas, o jornal impresso terá ainda um novo formato, o germânico (berliner). Mais fácil de manusear, ler e carregar, ele se adapta melhor ao dia a dia do leitor e já vem sendo adotado por jornais em vários países. Todas as mudanças têm como alicerce o jornalismo profissional e independente, ativos inegociáveis do jornal fundado há 146 anos.

 

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Marcas com mais de cem anos fazem aposta na inovação

De indústrias pesadas a fabricantes de alimento, passando pelo setor de beleza, empresas de mais de um século expandem seus negócios

Fernanda Guimarães, André Jankavski e Wesley Gonsalves, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 15 de outubro de 2021 | 07h11

Em um mercado difícil como o do Brasil, onde períodos de crescimento são seguidos de duros momentos de recessão, uma empresa sobreviver por um século é uma prova clara de competência e de capacidade de adaptação. Apesar de todas as dificuldades de se fazer negócios no País, há vários exemplos de companhias que até hoje são relevantes para a economia e também para o consumidor, incluindo casos de negócios centenários na indústria pesada, na fabricação de alimentos, em moda, higiene e beleza e também no segmento de mídia, como é o Estadão, fundado em 1875. 

Mas existe um segredo para a sobrevivência no longo prazo? Os seis casos analisados abaixo pela reportagem mostram que, se há uma receita para a longevidade, uma delas é a disposição em mudar e em se adaptar às novas realidades de mercado sem abrir mão daquilo que faz a empresa ser singular e garante a fidelidade de seus consumidores. 

Parece – e é – um equilíbrio difícil de atingir, tanto que são raros os negócios que conseguem se perpetuar para além do primeiro século. Não há estatísticas oficiais no Brasil sobre a quantidade de empresas centenárias em atividade, mas consultores dizem que chegar aos 100 anos tem ficado cada vez mais difícil.

“A empresa precisa se manter moderna, com tecnologia de ponta. Precisa responder rápido às mudanças. Poucos negócios conseguem esse dinamismo na gestão”, afirma o presidente da consultoria Corporate Consulting, Alberto Paiva.

Em algum momento, as companhias centenárias citadas nesta reportagem tiveram de dar um “salto” fora de sua zona de conforto. Algumas delas já trocaram de dono algumas vezes – caso da Alpargatas, dona das tradicionais sandálias Havaianas – ou enfrentaram severas dificuldades financeiras antes de mudar de mãos, como ocorreu com a fabricante de higiene e beleza Granado, que ficou na família fundadora por um longo período, até ser comprada por um empresário inglês nos anos 1990.

Por outro lado, há negócios que conseguiram prosperar sem abandonar sua origem. É o caso das indústrias Klabin (de papel e celulose) e da siderúrgica Gerdau – a primeira continua controlada pelas famílias originais (Klabin e Lafer), enquanto a segunda só deixou suas mais profundas raízes familiares recentemente. Foi só há quatro anos que a companhia, que ainda é controlada pelos descendentes dos fundadores, escolheu pela primeira vez um presidente sem o sobrenome Gerdau Johanpetter – o atual CEO, Gustavo Werneck. 

O executivo, além de trazer inovações para o negócio, adotou toque pouco associado a uma indústria. Adaptando-se ao discurso dos novos tempos, a Gerdau passou a abraçar com força a causa da diversidade

Adequar-se às mudanças da sociedade – que, em um século, são muitas – é fundamental para a sobrevivência. Por mais que os negócios permaneçam basicamente os mesmos, os desafios de se administrar uma estrutura gigante impõem nova forma de pensar.

O presidente da consultoria Mesa Corporate Governance, Luiz Marcatti, lembra que o sucesso do passado não garante mais a sobrevivência de qualquer companhia e que o processo de inovação precisa ser contínuo. “Todas as empresas precisam constantemente avaliar seu mercado, o comportamento dos seus clientes, as tendências de transformação nos hábitos de consumo, os movimentos dos seus concorrentes e o surgimento de novos players”, diz o especialista.

Marcatti destaca que muitas empresas têm a história, além do seu tempo de vida, atrelados ao período mais produtivo dos seus fundadores e, por essa razão, muitas acabam não conseguindo seguir em frente. “A administração dos negócios costuma ter uma marca personificada nos donos. As empresas mais longevas são aquelas que conseguem avaliar seu ciclo de vida e desempenho, e têm a coragem de se transformar para viver novos ciclos produtivos.”

GERDAU

Gigante do aço mira inovação

Com 120 anos, a Gerdau começou como uma fábrica de pregos e se transformou na maior siderúrgica do País, com forte presença nos EUA e faturamento de mais de R$ 40 bilhões. Representante tradicional da “velha indústria”, a empresa direcionou o negócio para a inovação e caminha para os serviços ligados ao aço. 

Segundo o presidente da empresa, Gustavo Werneck, há alguns anos, a empresa passou por uma reflexão profunda para se adaptar às novas demandas do mercado. “Para sobreviver nos próximos 120 anos e por medo de não acompanhar o mercado, decidimos ouvir nossos parceiros, clientes e o mercado de capitais”, afirma.

Essa reflexão já gerou frutos, como a Gerdau Graphene, focada no desenvolvimento e na comercialização de produtos com a aplicação do grafeno, material ao mesmo tempo forte e leve. Lançou ainda a Juntos Somos Mais, em sociedade com a Votorantim Cimentos e a Tigre. Outra empresa criada foi a G2L, de logística. Para Werneck, a prova de que a siderúrgica está no caminho certo é o próprio balanço, que bateu recorde no segundo trimestre de 2021. “Chegamos aos 120 anos com os melhores resultados financeiros da história, com as pernas fortes”, diz o executivo, o primeiro nome de fora da família Gerdau Johannpeter a chefiar o negócio criado há mais de um século. 

KLABIN

Meta de ser a 'Ambev do papel'

Fundada em 1899 como fabricante e importadora de artigos de escritório, a Klabin hoje é uma das maiores produtoras e exportadoras de papel e celulose do mundo, com faturamento anual de quase R$ 12 bilhões. 

Apesar de estar na Bolsa desde 1979, o controle do negócio continua nas mãos das famílias Klabin e Lafer. A influência familiar, que para muitos analistas pode ser um risco de governança, para Cristiano Teixeira, presidente da empresa, é um dos segredos da longevidade. 

“Muitos podem pensar que a governança de uma empresa familiar é pior do que a de uma corporação, mas já estive em todos os tipos de empresa e não vejo dessa maneira”, diz Teixeira.

Segundo o executivo, a família teve participação na decisão de atuar com todos os tipos de celulose: fibra curta, longa e fluff (usada para materiais higiênicos). Os herdeiros dos fundadores também encamparam um programa de sustentabilidade que permitiu a redução das emissões de carbono da empresa em 60% desde 2004. 

Teixeira crê que o futuro da Klabin é ser uma “Ambev do papel”. Ou seja: procurar sócios no exterior e criar uma empresa ainda mais global, mesmo que isso leve as famílias fundadoras a abrir mão do controle após mais de cem anos. “A empresa tem pernas para continuar sendo líder não só no Brasil, mas também no mundo.”

DROGA RAIA

De olho na saúde além do varejo

Uma das tarefas semanais de Antônio Carlos Pipponzi, presidente do conselho da Raia Drogasil (RD), é se reunir com os novos gerentes da varejista farmacêutica, que tem 2,3 mil lojas pelo País. Nesses encontros, Pipponzi conta a história da Droga Raia, fundada pelo seu avô João Baptista Raia, em 1905, em Araraquara (SP) – sem se esquecer, claro, da fusão com a então rival Drogasil, em 2011.

Líder do setor, com faturamento de R$ 21 bilhões, a empresa tem uma vantagem de R$ 10 bilhões sobre a segunda colocada. Para Pipponzi, isso só foi possível porque a companhia conectou os ensinamentos de seu avô, que sempre primou pelo atendimento, com as lições de gestão das gerações seguintes e os aprendizados vindos da Drogasil. “O meu avô estaria realizado, pois o que estamos fazendo é uma multiplicação do que ele fazia, que era ter o foco nas pessoas”, diz.

Para Pipponzi, o futuro da RD é se tornar mais uma empresa de saúde do que de varejo. Um dos passos dessa estratégia foi o lançamento da plataforma de saúde Vitat, visando à expansão de serviços como orientações nutricionais, psicológicas e físicas.

No entanto, a expansão continuará forte. Atualmente, a Raia Drogasil abre uma loja no Brasil a cada dia útil. Contando este ano e 2022, a empresa deve alcançar 480 novas unidades.

ALPARGATAS

Símbolo do Brasil era de escocês

Em 114 anos de existência, a Alpargatas passou por uma série de mudanças desde que deixou a Argentina para se instalar na Mooca, zona leste de São Paulo. Dos calçados de operários ao tênis Conga e até aos chinelos que “todo mundo usa”, a dona da Havaianas percorreu um longo caminho até se consolidar como um grande nome global. 

Empresa mais antiga na Bolsa brasileira, listada em 1913, a companhia já passou por várias mãos. Criada pelo escocês Robert Fraser em parceria com um grupo de investidores ingleses, a marca já pertenceu à Camargo Corrêa, à JBS e desde 2017 integra o portfólio da holding Itaúsa, após ser comprada por R$ 3,5 bilhões.

Lançadas nos anos 1960, as sandálias Havaianas foram criadas como alternativa para quem não podia comprar um calçado, mas se reinventaram, 30 anos mais tarde, como produto de moda cobiçado no mundo todo. 

Hoje, o número de sandálias vendidas supera a marca de 200 milhões ao ano – e, mesmo com a pandemia, a empresa cresceu 6% em 2020. Agora, a Havaianas quer vestir as pessoas da cabeça aos pés. “Estamos expandindo o portfólio além de chinelo, entrando em categorias de lifestyle e acessório trazendo mais materiais sustentáveis e reciclagem de resíduos de borracha de fábrica”, afirma o presidente da Alpargatas, Roberto Funari.

AVIAÇÃO

Da manteiga ao café gourmet

Desde que foi criada em 1920 pelas famílias Gonçalves e Salles, a fabricante Aviação segue como uma empresa familiar. Na quarta geração, a companhia tenta expandir a atuação dentro do “café da manhã” sem perder a tradição e o controle das operações. 

Com faturamento anual na casa de R$ 500 milhões, os donos da Aviação preferem usar o dinheiro do “próprio bolso” para continuar crescendo – até hoje não recorreram a fundos de private equity (que compram participações em empresas). “Somos muito conservadores em relação a investimentos. E esse é um dos nossos trunfos para chegarmos aos 101 anos”, afirma Roberto Rezende Pimenta Filho, vice-presidente da Laticínios Aviação.

Em 2020, ano de seu centenário, a Aviação investiu R$ 40 milhões na modernização do maquinário para aumentar em 150% a produção de manteiga, que responde por 65% do faturamento. No último século foram poucas atualizações na marca, sendo a mais recente em 2012.

Em meio à pandemia, a Aviação lançou um e-commerce próprio, mas o negócio ainda não decolou, em razão da dificuldade de encontrar logística especializada para refrigerados.

Para os próximos anos, a Aviação quer reforçar seu negócio de café. “Em vez de exportar, vamos produzir com nossa marca e colocar no mercado nacional”, diz Pimenta Filho.

GRANADO

Tradição com toque moderno

Poucos anos depois de a empresa mudar de dono, um time de restauradores foi criado na Granado com a missão de preservar um legado de mais de 100 anos de história. De um negócio com muita tradição, mas parado no tempo, a Granado conseguiu, finalmente, se livrar da dependência do polvilho, que foi seu carro-chefe por décadas. A empresa, que antes tinha poucos produtos e só vendia os itens em farmácias, hoje tem 80 “boticas” próprias e um portfólio de nada menos do que 700 produtos. 

Sem herdeiros, Carlos Granado, membro da família fundadora, vendeu a empresa do avô ao inglês Christopher Freeman em 1994. O novo dono da Granado optou por reavivar o negócio e, ao mesmo tempo, respeitar seu legado. O trabalho tem dado certo. A empresa faturou R$ 650 milhões no ano passado e estima uma expansão de 18% neste ano.

Freeman recrutou sua filha, Sissi, para modernizar o negócio. “Fizemos uma imersão na marca e pensamos em formas de ela ficar mais atual”, conta Sissi. A abertura de lojas permitiu que a Granado tivesse mais autonomia sobre seus lançamentos – antes, cada novo produto precisava do aval dos pontos de venda. Com isso o novo portfólio ganhou espaço e inclui produtos da também quase centenária perfumaria Phebo, adquirida em 1998. 

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Um novo 'Estadão' vem aí

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Famílias preservam leitura do Estadão como hábito por gerações

A experiência é uma tradição familiar na casa de muitos assinantes do jornal, que veem as mudanças previstas com bons olhos

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2021 | 05h00

A primeira lembrança de Lourenço Ribeiro de Almeida, de 75 anos, é a do pai sentado na mesa da cozinha lendo o Estadão. “Ele era médico. Antes de sair para operar, lia todo o jornal”, conta. Por influência do pai, Ribeiro afirma que começou a folhear e ler o periódico aos 5 anos. “Fui alfabetizado pelo jornal O Estado de S. Paulo.”

A relação de um homem com o jornal que escolheu para ser sua companhia e fonte de informação diária é algo muito particular e profundo. Ribeiro, por exemplo, tem um ritual parecido com o do pai, mas prefere ler a edição de trás para frente – começando pela editoria de Esportes e avançando até as primeiras páginas. “Nos fins de semana é o que eu mais gosto de fazer.”

Ele é um dos assinantes mais tradicionais do Estadão – tendo acompanhado quase metade dos 146 anos de história do jornal. Para Ribeiro, o conteúdo e a profundidade como as notícias são abordadas estão entre fatores que o mantém fiel por tantos anos. O Estadão tem assinaturas desde sua primeira edição, em 1875, quando ainda se chamava A Província de São Paulo.

A artista plástica Marília Campanário da Silva Pereira, que prefere não falar em idade, é leitora do Estadão desde os anos 1960. O carinho pelo jornal também vem de uma tradição familiar: o pai era assinante, o marido, também, e os filhos agora são leitores e assinantes. “Tomo café lendo o jornal ou fazendo as palavras cruzadas”, diz. 

Para ela, o segredo do jornal é a credibilidade. “Gosto da clareza de como as coisas são tratadas. É um jornal em que confio.” O momento mais marcante da relação de Marília com o Estadão aconteceu nos anos 1970, quando ela mesma virou notícia. “Em 1972, o jornal publicou uma crítica da minha primeira exposição individual”, lembra a artista. 

A advogada Jaqueline Valles, de 56 anos, assina o Estadão há 30. Ela elenca as características que a transformaram em assinante fiel. “É um jornal centrado sem ser tendencioso. Gosto da diversidade de pautas e dos editoriais.”

Perguntada sobre o que acharia se o jornal preferido dela passasse por algumas mudanças, foi direta. “Sou aberta às mudanças. Claro, sempre pode ser que eu goste ou não. Mas o importante sempre será o conteúdo”, opina. “O fato é que o jornal me ajuda muito no meu trabalho. É uma forma de estar sempre atualizada com o que acontece no País e no mundo.” 

O administrador Fábio de Souza Abreu, de 58 anos, é assinante do jornal desde o fim dos anos 80. Para ele, a relação com o Estadão está ligada ao prazer da leitura de um produto físico. “Eu gosto do papel. Não tenho paciência para ler em outras mídias. Aliás, mantenho o hábito de leitura de jornal para que meus filhos levem como exemplo e também sigam com esse hábito”, diz.

“Nesses tempos em que vivemos, a polarização política atrapalha demais. Leio o Estadão porque sei que ali tenho uma posição e análise independente – e, principalmente, clara e direta. Com o Estadão, eu consigo entender os dois lados”, comenta.  Apesar de leitor de longa data, Abreu animou-se com a ideia de algumas mudanças em seu jornal. “Gosto de mudar e de mudanças. Manter a qualidade do conteúdo é fundamental, mas não vejo problema em mudanças de formato. Acharia até mais fácil para levar comigo ou abrir na mesa.” 

A missão de transmitir o gosto pela leitura aos filhos foi levada a sério por Abreu. O filho dele, Theodoro Malentachi Abreu, de 24 anos, estudante de administração, já é alguém com gosto pelo jornal de papel. “Eu costumo olhar o jornal pela manhã, na mesa do café, junto com o meu pai. Leio, principalmente, a parte de Economia”, disse. 

Assim como aprendeu com o pai, Malentachi acredita que pode e vai passar o gosto pela leitura de jornais para o seu filho. “Com certeza, é algo que eu posso incentivar em um filho”, contou. Sobre mudanças no jornal que acompanha, Malentachi tem uma certeza. “O leitor vai se perguntar: ‘o que eu ganho com isso?’ O que não pode é perder o conteúdo.” 

Já Affonso Maria Lima Morel, de 89 anos, se diz leitor do Estadão desde o tempo em que a memória alcança. “O jornal tem uma equipe de jornalistas que eu acho invejável. Gente que escreve muito bem. No Brasil, a única coisa que a gente tem são os jornalistas sérios”, afirma.

Fiel ao hábito da leitura matutina do jornal, Morel se diz pronto para uma futura mudança no “papel”, mas avisa: “O importante é seguir na mesma linha editorial. É preservar o conteúdo”.

Volta ao papel?. O engenheiro Alessandro Shirahige, de 41 anos, herdou a assinatura do pai. “Ele era assinante desde meados dos anos 80. O jornal sempre foi uma presença familiar”, disse. Quando o pai dele faleceu, a assinatura passou para o nome do filho – ato marcante para Shirahige.

Ao se mudar para Piracicaba, no interior de São Paulo, optou por assinar apenas a versão digital, o site do Estadão. “A dinâmica mudou, a forma de consumo de notícias é diferente. Hoje, leio pelo aplicativo. Fiquei com o digital”, disse Shirahige.

Ainda assim, Shirahige diz gostar muito de jornal impresso e sentir falta de papel. Ao ser informado sobre mudanças no impresso, ele adiantou-se em se dizer curioso e afirmar que mudanças (ele não foi informado quais) o fariam experimentar e, talvez, retomar o hábito de abrir um jornal impresso. 

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'Se a imprensa está sendo atacada, é porque é relevante', diz presidente da ANJ

Marcelo Rech defende aprovação de lei para obrigar plataformas de internet a remunerar empresas jornalísticas

Marcelo Godoy e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

Presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech afirma que o jornalismo profissional é a principal barreira de contenção à desinformação e ao autoritarismo. Ao Estadão, ele disse considerar que há risco de acontecer um “apocalipse informativo” caso os veículos de comunicação não consigam sobreviver à crise de receita pela qual passa o setor. A ANJ defende a aprovação de uma lei que obrigue as plataformas de internet a negociar com empresas jornalísticas para garantir que haja remuneração pelo conteúdo que produzem e que circula nas redes.

A seguir os principais trechos da entrevista:

Vivemos em um ambiente de radicalismos na política, em que ataques da direita e da esquerda tentam minar a credibilidade da imprensa. Como enfrentar esse desafio?

Temos que distinguir o que são ataques instrumentalizados e o que são críticas normais, que são bem-vindas. Mas o que nós vemos em grande parte do mundo é um ataque sistematizado ao jornalismo independente. Isso se dá porque a imprensa profissional é a última barreira de contenção contra a desinformação e o autoritarismo. A desinformação busca preparar terreno para o domínio de posições autoritárias, à esquerda e à direita. A imprensa é o estraga-prazeres daquele que espalha mentiras em busca de ganhos políticos ou econômicos, e é por isso que sofre esses ataques. Em países mais polarizados, caso do Brasil, esses ataques são mais intensos e organizados. Mas se a imprensa ou um veículo estão sendo atacados, é porque são muito relevantes. 

As grandes empresas de tecnologia, que se beneficiam do tráfego gerado por empresas jornalísticas na internet, devem remunerá-las pelo conteúdo? Como?

Existem duas grandes vertentes de discussão. Uma delas faz a avaliação do direito autoral, do uso de conteúdos jornalísticos que geram audiência, engajamento e receita publicitária para as plataformas. A outra reconhece a atividade jornalística como parte fundamental das democracias. É a posição com a qual me alinho. O raciocínio é simples: com a drenagem de recursos do mercado por big techs como Google e Facebook, elas hoje ficam com algo em torno de 70% das verbas de publicidade digital. Os outros produtores de conteúdo, sejam jornalísticos ou não, dividem os 30%. Os veículos de comunicação têm hoje audiência ainda maior do que tinham no passado, porque sua relevância só aumenta, mas a receita econômica cai. 

Quais são as consequências?

Nesse ritmo, em uma ou duas gerações, não haverá mais um ecossistema jornalístico diversificado e independente. Se houver o desaparecimento desse ecossistema do jornalismo, vai ocorrer um apocalipse informativo. Não haverá mais a barreira de contenção da desinformação. Ninguém vai restabelecer a verdade. 

A ANJ considera que uma lei no Brasil deve obrigar as empresas de tecnologia a negociar remuneração por conteúdo com os veículos de comunicação? 

Entendemos que sim. A poluição social representada pela desinformação, pelos discursos de ódio e pelas teorias conspiratórias alucinadas afeta o próprio negócio deles, que é a venda de publicidade sobre conteúdos críveis. Mas eles não conseguem fazer a limpeza dessa poluição social, e a regulação pode inviabilizar as plataformas ou afetar o direito de liberdade de manifestação. Então, a melhor solução é o reforço do jornalismo profissional. Isso é fundamental também para os negócios das plataformas. É o jornalismo profissional que faz a limpeza desse ambiente poluído quando faz uma checagem, quando repõe a verdade. É preciso remunerar quem faz essa limpeza.

As redes sociais devem ser responsabilizadas pelo conteúdo publicado por seus usuários? 

A ironia é que, em todo o mundo, se discute a responsabilização das plataformas, mas o governo Bolsonaro está defendendo o oposto. Ele quer impedir a moderação de conteúdo nas redes. Quer evitar qualquer remoção de conteúdos tóxicos que visam desinformar a sociedade. Na minha opinião, essa deveria ser uma responsabilidade moral, ética e legal de todo mundo que lida com conteúdo. 

Deve haver regulação de conteúdo?

É preciso reconhecer que a questão da liberdade de expressão é fundamental. Qualquer responsabilização por algum abuso deve ocorrer a posteriori, ou seja, depois da publicação. Estamos começando a ver, em países como Índia e Cingapura, governos começando a editar leis que definem o que as plataformas podem ou não divulgar. Acho uma interferência inaceitável.

Qual é o papel dos jornais impressos em um mundo cada vez mais digital?

O jornal impresso tem uma capacidade única que é a de organizar as informações em um mundo caótico. Ele hierarquiza as informações. Além disso, o bem mais escasso hoje no mundo é a atenção. A leitura exige concentração e foco. É uma atividade que não pode ser feita ao mesmo tempo que outras. E aí o impresso tem outra grande vantagem. Em alguns países de altíssimo nível educacional, entre eles a Alemanha, a circulação e a receita de veículos impressos tem subido. Em uma pesquisa da Syno International (empresa de pesquisa de mercado), o jornal impresso apareceu como o veículo mais confiável para a publicidade. Em termos de credibilidade, até agora nenhum outro meio chegou perto.

Um novo Estadão vem aí

A versão impressa do Estadão será renovada a partir do próximo domingo, 17. Com base nas expectativas dos leitores, ouvidos durante os 11 meses do projeto de transformação, o novo impresso terá inovações no conteúdo, com novas seções que priorizam o aprofundamento e o contexto dos fatos. Como resultado das pesquisas, o jornal impresso terá ainda um novo formato, o germânico (berliner). Mais fácil de manusear, ler e carregar, ele se adapta melhor ao dia a dia do leitor e já vem sendo adotado por jornais em vários países. Todas as mudanças têm como alicerce o jornalismo profissional e independente, ativos inegociáveis do jornal fundado há 146 anos.

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'Estadão Verifica' já desmentiu 642 boatos na pandemia

Prioridade é o combate à desinformação sobre o coronavírus, a vacinação e os falsos tratamentos de covid-19

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

O Estadão Verifica já desmentiu 642 boatos sobre a pandemia de covid-19 em seu blog e em redes sociais. Criado em junho de 2018, o núcleo de verificação e checagem de fatos do Estadão publicou, desde então, 1.959 textos sobre peças de desinformação que circulam na internet.

Parte significativa das verificações foi feita em parceria com o Projeto Comprova, uma coalizão de dezenas de veículos de comunicação que trabalham colaborativamente no combate à desinformação. Implantado há três anos sob a inspiração da organização internacional First Draft, o Comprova é coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e apoiado por entidades ligadas ao jornalismo, além dos patrocinadores Google e Facebook.

No momento, a prioridade da equipe do Verifica é o combate à desinformação sobre o coronavírus, a vacinação e os falsos tratamentos de covid. Um em cada quatro dos conteúdos verificados sobre a pandemia trazia informações enganosas sobre vacinas. Um em cada cinco continha falsidades sobre o chamado “tratamento precoce”.

Em breve, a versão impressa do Estadão trará verificações sobre alguns dos boatos que mais circulam nas redes.

Desde novembro passado, os leitores do jornal podem interagir com um “bot” do Estadão Verifica pelo WhatsApp. Por meio dele, é possível enviar conteúdos suspeitos e receber as análises sobre sua veracidade. O serviço foi viabilizado graças a uma parceria com o WhatsApp para acelerar o fluxo de verificações no aplicativo.

Funciona assim: o usuário manda um “oi” para o número (11) 97683-7490 e recebe um menu com opções. Ao escolher “1”, é convidado a enviar fotos, vídeos, áudios, textos e links suspeitos. Se o conteúdo já tiver sido verificado, o usuário recebe a checagem de forma automática, em segundos. Caso a sugestão enviada ainda não tenha sido analisada, ela entrará na fila de apuração.

Desde 2019, o Estadão Verifica também faz parte do Programa de Verificação de Fatos Independente do Facebook. Por meio dessa parceria, são classificados conteúdos desinformativos que circulam na rede social. Postagens com alegações falsas têm a circulação reduzida.

Outra rede na qual o núcleo atua é o TikTok. Vídeos marcados como suspeitos são enviados para avaliação pela equipe do Verifica. Um relatório sobre cada um deles é devolvido para os responsáveis pela moderação do conteúdo da plataforma, que decidem se os vídeos permanecem ou não no sistema.

O Verifica é, desde 2019, signatário do código de princípios estabelecidos pela organização International Fact Checking Network (IFCN). Isso significa que respeita os compromissos de apartidarismo e imparcialidade; transparência em relação a fontes, financiamento e metodologia; e aplicação de uma política de correções transparente se cometermos erros. 

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Um novo Estadão vem aí

A versão impressa do Estadão será renovada a partir do próximo domingo, 17. Com base nas expectativas dos leitores, ouvidos durante os 11 meses do projeto de transformação, o novo impresso terá inovações no conteúdo, com novas seções que priorizam o aprofundamento e o contexto dos fatos. Como resultado das pesquisas, o jornal impresso terá ainda um novo formato, o germânico (berliner). Mais fácil de manusear, ler e carregar, ele se adapta melhor ao dia a dia do leitor e já vem sendo adotado por jornais em vários países. Todas as mudanças têm como alicerce o jornalismo profissional e independente, ativos inegociáveis do jornal fundado há 146 anos.

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Jornais inovam com o formato berliner

Tamanho intermediário entre standard e tabloide vem sendo adotado com sucesso por veículos na Europa, na Ásia e na América Latina

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 14 de outubro de 2021 | 09h24

Uma das primeiras aulas da faculdade de jornalismo consistia em explicar a diferença nos formatos dos jornais impressos. O standard é o chamado “jornalão”. Formato mais usado no Brasil, é aquele que você dobra no meio e consegue até se esconder atrás da página. Já o tabloide é bem menor, quase do tamanho de uma revista. O exemplo usado por quase todos os professores eram os jornais gaúchos. E, por fim, há o formato germânico. Um meio do caminho entre os dois.

O germânico, ou berliner, tem esse nome por ter sido adotado no começo do século 20, em contraste com o tradicional formato standard. Tem 31,5 cm por 47 cm e é mais fácil de manusear na comparação com o standard. “O berliner conserva o desenho do standard, mas é mais elegante. E não tem o impacto negativo que poderia ter o tabloide, mais associado ao sensacionalismo. A primeira reação do leitor foi de surpresa, mas nos tornamos claramente um jornal mais moderno, mais ágil. O leitor agradeceu”, diz Jorge Rosales, editor da versão impressa do jornal argentino La Nación, que adotou o formato este ano.

Novidade no Brasil, com a mudança gráfica do Estadão, o berliner ganhou popularidade na Europa na virada do milênio. Os pioneiros foram os suecos. Na Escandinávia, o teste começou pelos suplementos, onde são publicadas notícias mais leves, sobre gastronomia, turismo e cultura. O Dagens Nyheter, de Estocolmo, adotou essa tática de apresentar o formato aos poucos aos leitores em 2004. E deu certo.

O sucesso do berliner atravessou o Mar do Norte e ancorou na Inglaterra, país de larga tradição na imprensa escrita. Àquela altura, o formato também era um indicativo de seu conteúdo. Os jornais publicados em formato standard, como The Times e Guardian, eram tidos como mais sérios, e os tabloides, como The Sun e Daily Mirror, identificados com o sensacionalismo.

Coube ao Guardian, uma publicação bicentenária no Reino Unido, a iniciativa de modernizar seu formato, em 2005. O jornal fez um estudo profundo sobre diferentes tamanhos e chegou à conclusão de que o berliner era a melhor opção. Outros diários, como o Independent, chegaram a publicar dois formatos simultâneos para ver qual era o mais aceito pelo leitor. O formato germânico, novamente, foi o vencedor. Mas, sem dinheiro para trocar as impressoras, o jornal acabou adotando o formato tabloide.

Com o sucesso no Reino Unido, o formato se espalhou para outros países da Europa na primeira década do século.Le Monde e  Le Figaro, na França, La Stampa e La Repubblica, na Itália, e o Expresso, em Portugal, são algumas das publicações que preferiram o berliner.

As razões para isso foram atestadas em pesquisas. O Independent, por exemplo, descobriu que 90% de seus leitores preferem o formato germânico, que consideram mais amigável e portátil.

O tempo de leitura é maior e o conteúdo é assimilado com maior eficácia. Pesquisas feitas na Bélgica, pelo diário Gazet van Antwerpen, indicam que o impacto da publicidade também é maior no berliner.

O formato também foi adotado em vários países da Ásia, como na Coreia do Sul, onde o diário JoongAng Ilbo foi um dos primeiros a iniciar a transformação, em 2009. O principal jornal de língua inglesa dos Emirados Árabes, Gulf News, adotou o formato berlinense em 2012, o primeiro no Oriente Médio.

Nos últimos anos, o formato atravessou o Atlântico e passou a ser usado na América Latina. O jornal El Comercio, de Lima, um dos mais antigos do continente, mudou para o germânico recentemente. O mesmo ocorreu com La Nación, da Argentina, e os chilenos La Tercera e El Mercurio.

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