Estado da pista era de alerta desde 2004

Com as obras, Infraero teria alcançado índices de segurança

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2022 | 00h00

A pista principal de Congonhas não foi prioridade para o governo, apesar de, desde 2004, a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero) ter em mãos um laudo da Universidade de São Paulo (USP), encomendado pela própria estatal, apontando situação de alerta no local, em razão de problemas nos coeficientes de atrito da pista, informou o Ministério Público Federal. A procuradoria tem uma força-tarefa que vem acompanhando todo o conjunto de obras realizado no aeroporto nos últimos anos. As obras da pista, de R$ 20 milhões, foram feitas somente neste ano, após cobrança da procuradoria, via contrato emergencial, sem licitação -a primeira fase foi entregue no último dia 29 de junho. Antes disso, no entanto, vários incidentes de derrapagem foram registrados na pista, entre eles o do avião da BRA, que em 2006 beirou a avenida Washington Luiz. "Eles mesmos acabaram nos apresentando um estudo da USP que apontava falhas técnicas na pista, que ficou pronto ao mesmo tempo que eles lançavam a licitação de 2004 (referente ao terminal de passageiros e outras áreas), sem incluir a pista principal", afirmou a procuradora da República Suzana Fairbanks Lima de Oliveira. Só a pista auxiliar foi incluída no contrato com o consórcio OAS/Galvão Engenharia, que bateu nos R$ 165 milhões. A Infraero hoje, no entanto, tem em mãos dados que apontam condições apropriadas de atrito na pista após a obra, referentes à quinta-feira da semana passada -a medição sempre ocorria neste dia da semana. O coeficiente médio ficou em 0,7, segundo a empresa, acima do padrão de segurança da Icao (Organização Internacional de Aviação Civil), de 0,5. Os dados positivos foram checados por especialistas que fiscalizam as obras, segundo a reportagem apurou, o que deverá reforçar a hipótese de que um problema no avião seja a causa do desastre . Laudo do Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da Escola Politécnica da USP de 2004 , no entanto, verificou ainda que análises feitas em 2001, na inauguração de uma outra reforma da pista, utilizaram metodologia inadequada, o que elevou erroneamente os coeficientes de atrito do local -a revisão mostrou que os coeficientes, na verdade, estavam abaixo do índice de segurança aceitável. "Há, em dezembro de 2001, vários segmentos de 30 metros com atrito inferior a 0,50!", diz o laudo. Ao verificar as condições da pista em 2004, o documento volta a usar exclamações. "O atrito entre as estacas 380 e 480 é de 0,36!". Nas conclusões, o laudo afirma que "a situação da superfície é de alerta quanto ao baixo atrito em pavimento molhado" e recomenda, emergencialmente, a raspagem de borracha acumulada na pista, e, a longo prazo, a reconformação e recapeamento da pista. A reportagem não localizou a professora responsável pelo laudo. A Infraero, procurada na noite de ontem, disse que não teria nenhum responsável para comentá-lo.

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