Estado de teatro ajudou a propagar fogo

Esta é a conclusão de laudo do Instituto de Criminalística que ficou pronto ontem; resultado segue para a polícia

Renato Machado e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2008 | 00h00

O estado de conservação do Teatro Cultura Artística criou as condições favoráveis para a propagação do incêndio que destruiu quase que totalmente o espaço na madrugada de 17 de agosto. Essa é uma das principais conclusões do laudo pericial do Instituto de Criminalística (IC), órgão ligado à Secretaria de Segurança Pública do Estado, que foi concluído ontem e já está à disposição das autoridades policiais. O documento também descarta que a tragédia possa ter sido causada somente por um curto-circuito e não aponta indícios de uma ação criminosa, embora essa última suposição ainda possa ser investigada pela polícia.O trabalho dos peritos Antônio Roberto Antunes Lazaro e Ivo Valentini, do Núcleo de Engenharia do IC, abre um leque de hipóteses e não elege culpados. O fogo teria começado na região do palco da Sala Esther Mesquita, a maior do Cultura Artística, com capacidade para 1.156 pessoas - a investigação da polícia apontou que as chamas se propagaram primeiramente pelo lado esquerdo do palco. Uma das principais hipóteses para o início do incêndio seria um fenômeno termoelétrico, que pode ser provocado por um superaquecimento do sistema de iluminação ou da própria fiação elétrica. Também não está descartada a suposição de uma causa externa de combustão, como um fósforo ou um cigarro jogado ainda aceso.Mesmo sem chegar a uma conclusão final, os peritos apontam que, se não fosse o estado de conservação do Cultura Artística, o fogo não teria tomado as proporções de tragédia. O IC usou como referência dezenas de fotos tiradas no dia 29 de maio por um arquiteto do curso de especialização da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Nelas, é possível ver fios expostos no palco da Sala Esther Mesquita, ferrugem nas soldas da caixa de disjuntores, infiltrações, concreto desgastado nas paredes e muita madeira deteriorada.As fotos foram feitas por Anderson Leite Schmidt, de 28 anos, e reveladas com exclusividade pelo Estado. O arquiteto visitou o Teatro Cultura Artística para concluir um trabalho sobre "Patologias, Origens e Reflexos no Desempenho Técnico-Construtivo do Edifício". Ao fazer suas análises, Schmidt utilizou como base os métodos dos bombeiros e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), principalmente a norma NBR 6.241, que trata sobre materiais isolantes e coberturas protetoras. E achou uma série de inadequações do projeto, problemas de execução de obras, materiais empregados e manutenção.SUPERAQUECIMENTOTais imagens foram anexadas ao inquérito e enviadas ao IC. Segundo os peritos, o sistema de iluminação pode ter superaquecido ou os próprios fios poderiam estar sobrecarregando o sistema elétrico. Como havia uma grande quantidade de pano, madeira e pó - componentes altamente inflamáveis - o fogo se propagou mais facilmente. O IC ainda afirma que, como o Cultura Artística não contava com equipamentos de combate a incêndio mais modernos (como sprinklers, pequenos chuveiros automáticos), o fogo não pôde ser contido.Procurada pela reportagem, a diretoria da Sociedade Cultura Artística afirmou que só vai se pronunciar após a divulgação oficial do laudo do IC. Anteriormente, a entidade havia negado que o teatro estava em más condições e atacou a credibilidade do trabalho de Anderson Leite Schmidt. "Ele não tem seriedade nenhuma e está cheio de mentiras. As fotos não deixam claro que se trata do nosso teatro. Podem ser de qualquer outro lugar, podem ser de um dia de montagem de espetáculo, quando tudo fica um pouco desorganizado", disse o superintendente da entidade, Gérald Perret, que também negou que os fios estavam expostos. Agora, o laudo do instituto será enviado ao delegado responsável pelo caso, Roberto Carvalho Naves. Ainda não existe previsão para o término dos trabalhos.

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