'Estado' ganha Vladimir Herzog e SIP

Caderno 'Guerras desconhecidas do Brasil' recebe prêmios de jornalismo por investigação que revelou morte de 556 civis em revoltas

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2011 | 03h00

O caderno Guerras desconhecidas do Brasil, publicado em dezembro pelo Estado, conquistou a edição 2011 do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, o mais tradicional concedido no País a reportagens que denunciam violação de direitos civis e políticos. O anúncio coincidiu com a entrega do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), ontem, no Peru. A investigação revelou que 556 civis foram mortos em 32 revoltas populares no século 20.

O Prêmio Vladimir Herzog homenageia o jornalista que passou pelo Estado, pela BBC e pela TV Cultura e foi morto pela ditadura militar. Na passagem pelo Estado, em 1960, Herzog atuou na instalação da sucursal em Brasília. É a primeira vez que o prêmio que leva seu nome é concedido a profissionais que trabalham no escritório que ajudou a criar: Guerras desconhecidas do Brasil foi elaborado por Leonencio Nossa (texto) e Celso Junior (fotografia), da sucursal de Brasília, e José Eduardo Barella (edição), Fábio Sales (criação gráfica) e Farrel (ilustração). O jornal recebeu o Vladimir Herzog por melhor reportagem em 1981, com o caso Riocentro e, no ano seguinte, com reportagem sobre fraude em laudos médicos.

Torturado e morto em 25 de outubro de 1975, aos 38 anos, no porão do DOI-Codi, em São Paulo, Herzog tinha se apresentado espontaneamente às autoridades policiais, após pedido de esclarecimentos por suas relações com o PCB. A morte repercutiu no exterior e impulsionou o movimento contra a ditadura. O II Exército tentou emplacar a versão de que Herzog cometeu suicídio. A Justiça, em 1982, derrubou essa versão e responsabilizou a União pelo assassinato. A morte de Herzog causou indignação de intelectuais, artistas e lideranças sindicais. Um culto ecumênico na Catedral da Sé reuniu 8 mil pessoas, na maior manifestação contra o regime desde as passeatas estudantis de 1968. Na época, o Estado e o jornal Unidade publicaram manifesto de 1.004 jornalistas. A criação do prêmio, em 1979, pela família Herzog, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo foi um instrumento pela volta da democracia. Depois do Esso, o Vladimir Herzog é o prêmio de jornalismo mais antigo no País.

Investigação. A denúncia contra a repressão de tropas legais contra civis e os princípios de defesa dos direitos do homem levaram o júri a escolher Guerras desconhecidas do Brasil por unanimidade. A investigação de 17 meses emocionou o júri, segundo fontes do concurso. Ao premiar o caderno, o júri da SIP já disse que era a "melhor investigação da década", ultrapassando "os critérios de excelência jornalística".

O trabalho também recebeu o Prêmio de Jornalismo Investigativo do Instituto Prensa y Sociedad (IPYS) na votação popular e o Prêmio José Hamilton Ribeiro de Jornalismo, também oferecido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Especialistas do jornalismo também elogiaram o caderno. "É um mergulho no Brasil profundo e melancólico, com um olhar e sonoridades de Euclides da Cunha que a direção do jornal teve a ousadia de reviver e bancar", escreveu Alberto Dines, no site Observatório da Imprensa. "É uma investigação que aciona sensações que a imprensa há tempos trocou pelos estrondos sem resultados e pela banalidade inconsequente."

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