Estado privatizou os trilhos e coube a cidades e grupos salvarem a história

O sistema ferroviário brasileiro passou ao controle da iniciativa privada em 1999. No entanto, o grupo que ganhou a concessão ficou responsável somente por explorar os trilhos. Todo o restante do patrimônio ficou a cargo da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), empresa de propriedade da União e que está em processo de liquidação. Ou seja, imóveis como as estações e os galpões estão esquecidos, sem investimentos e manutenção.Alguns municípios e entidades tentam reverter essa situação e assumiram para si a responsabilidade sobre as estações. É o caso do comando da Polícia Militar de Vera Cruz, município de 11 mil habitantes. Há oito anos, a corporação decidiu assumir o imóvel que estava abandonado. Foram os próprios agentes que realizaram as pequenas intervenções, trocando alguns pedaços podres de madeira, pintando janelas, limpando o local. A única grande modificação foi na parte interna, quando foi feito um outro banheiro, pois havia uma mulher no efetivo de 12 agentes."Em dois anos deve ficar pronto o nosso novo prédio. Tomara que alguém dê sequência ao nosso trabalho" , diz o comandante da unidade, Rubens Portela, que se orgulha de um quadro mostrando que, até quarta-feira, não havia homicídios na cidade há um ano e 43 dias.Em Paulópolis, distrito de Pompeia, a estação e o grande galpão de armazenagem foram usados pela prefeitura para construir a sede da subprefeitura, um posto do correio, uma creche e uma escola de educação infantil. No total, 74 crianças frequentam o lugar. "Era uma área por onde todo mundo tinha medo de passar e hoje é o espaço das nossas crianças. A gente só fica bravo quando os maquinistas dos trens de carga apitam na hora do sono delas", brinca a coordenadora Ana Fátima Pestana Cassaro.Além de revitalizar a estação, transformando-a em casa da cultura - com oficinas para crianças -, a prefeitura de Lucélia construiu uma pista de caminhada nos trilhos e uma academia para a terceira idade ao ar livre na praça atrás do prédio. A estação de Pederneiras, na região de Bauru, também virou um centro cultural para a população. Além de ser revitalizado exatamente no formato em que foi construído em 1913, o local ganhou uma biblioteca de arte, sala de exposições e um telecentro para jovens. "Tivemos de fazer uma pesquisa grande para reconstruir exatamente do mesmo jeito, porque já não havia mais nada. Bancos, janelas e relógios foram roubados", diz o coordenador do acervo histórico, Rinaldo Toufik Razuk. "Agora é só manter."

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