Raphael Muller/AP
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'Estão distorcendo a resposta do governo brasileiro', diz embaixador da Argentina

Em entrevista ao Estadão, Daniel Scioli diz que estão "interpretando mal a resposta dada pelo governo brasileiro" e que "eles simplesmente a agradeceram e disseram que a teriam em conta"

Luciana Rosa, de Buenos Aires, Especial para O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2021 | 12h56

BUENOS AIRES - Para o embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, a recusa do governo brasileiro ao envio de ajuda humanitária à Bahia está sendo distorcida por causa do ambiente político no país. 

O homem à frente da embaixada da Argentina no Brasil falou ao Estadão sobre as especulações que surgiram sobre a relação dos dois países a partir da negativa do governo Bolsonaro.

As fortes chuvas que levaram ao alagamento de boa parte da região sul da Bahia causaram a morte de 24 pessoas e deixaram outras 91 mil desabrigadas. A situação de calamidade chamou a atenção da vizinha Argentina, que vem se esforçando para construir uma melhor relação com o Brasil através do trabalho do embaixador, candidato à presidência argentina em 2015.

"O governo simplesmente agradeceu e disse que, caso fosse necessário, aceitariam a oferta", diz. "Em nenhum momento isso vai em detrimento nem da relação com a Argentina, nem do espírito de solidariedade para com o Estado da Bahia". Confira a entrevista:

Qual foi o tipo de ajuda oferecida pela Argentina?

A Argentina, como faz habitualmente, através da organização humanitária cascos blancos (capacetes brancos), ofereceu ajuda e se colocou à disposição diante das circunstâncias que temos no Estado da Bahia. Isso é algo habitual. O governo federal nos comunicou a recusa, em termos muito respeitosos, de acordo com o que é hoje a relação entre Brasil e Argentina, baseada hoje na cooperação e na existência de uma agenda positiva. O governo simplesmente agradeceu a oferta e disse que eles estavam fazendo esforços e investimentos mas que, caso fosse necessário, aceitariam a oferta. Em nenhum momento isso vai em detrimento nem da relação com a Argentina, nem do espírito de solidariedade para com o Estado da Bahia. 

A negociação foi feita diretamente com o estado da Bahia?

Sim, porque é o epicentro da questão. Obviamente nós também comunicamos ao Itamaraty, como é de praxe quando acontece esse tipo de catástrofe. Nós oferecemos ajuda humanitária e logística. No entanto, o próprio governo federal disse que agradecia e, caso essa situação se complique, levará em consideração a oferta. Mas, por enquanto, eles já estariam enviando colaboração e fazendo os investimentos necessários.

O presidente brasileiro, também através de twitter, disse que a ajuda teria sido recusada?

Esse tuíte do presidente confirma o que eu acabo de te dizer, que o governo federal já estaria enviando ajuda à Bahia através da colaboração das Forças Armadas com a Defesa Civil local. Sinto, como um homem com experiência política, que estão distorcendo e interpretando mal a resposta dada pelo governo brasileiro à nossa ajuda. Quando eles simplesmente a agradeceram e disseram que a teriam em conta.

Como essa recusa poderia  afetar a relação entre os dois países?

Posso te dizer que a relação responde a uma agenda muito positiva, seja com o governo federal, seja com cada um dos Estados do Brasil, que visitei pessoalmente. E vemos isso refletido nos avanços que tivemos a esse respeito com os governadores. 

Há muita especulação por causa da tensão no que diz respeito à relação direta do presidente brasileiro com o presidente argentino.

Sim, para isso estou aqui! Para todo o tempo impulsionar as coisas. Tivemos recorde de intercâmbio comercial, colaboração em todas as áreas, acordo com o orçamento externo comum, respaldo do Brasil nas negociações com o FMI, respaldo do Brasil quanto à soberania no tema das Malvinas, autorização por parte do Brasil, único país do mundo, do trigo HB4 transgênico e mais um montão de controvérsias solucionadas com o Brasil em todos os temas. Para além de diferenças ideológicas, aqui se trabalhou com um grande sentido de responsabilidade pensando no que é bom para os nossos países e estamos terminando um ano com importantíssimo avanços em todas as áreas. 

Por que você acha que repercutiu tanto essa recusa, então?

Como um homem político, eu sei que se trata de um momento sensível, com muita disputa política e, no ano que vem, haverá eleições presidenciais. Mas os termos através dos quais se está discutindo isso não coincidem com o que tem sido nosso espírito, o do governo do estado da Bahia e do próprio governo Bolsonaro.

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