''Este é o trem da chibata e nada vai mudar isso'', diz passageira

Fiscais somem e situação em Madureira fica ainda pior

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2009 | 00h00

Um dia após a agressão a passageiros, os fiscais de controle não são vistos na Estação Madureira. Às 7h10, um homem se distancia dos passageiros que esperam na parte coberta da plataforma, desce para a linha férrea e urina. Sem pressa, ele termina e volta para junto dos demais. É hora do rush, mas o sistema de som avisa que o intervalo entre os trens é de 40 minutos. Alguns homens não pagam a tarifa de R$ 2,45 e passam entre as grades tortas que separam a estação da Rua Carolina Machado. Eles cruzam a via férrea a pé. Uma viatura da Polícia Militar, que ontem reforçava o policiamento, não intervém.A secretária Vanderléia Barbosa, de 45 anos de idade e "23 de trem", reclama. "Ninguém respeita nada aqui, como o vagão exclusivo para as mulheres. Nada do que aconteceu é novidade. Já vi muitas brigas entre estes agentes e passageiros." Apenas 36 dos 158 trens têm ar-condicionado. Logo, a maioria dos vagões chega a Madureira com as portas abertas. O bairro tem o ritmo frenético ditado por seu variado comércio popular e pelas inúmeras linhas de ônibus, que fazem pessoas de vários cantos da cidade passar por ali diariamente. Na correria, os passageiros têm de pular um vão de 40 centímetros entre o trem e a plataforma. "Eu estava no vagão na hora da confusão. O trem ficou parado e o pessoal reclamando. Depois, foi aquela confusão, com gente se espremendo para fugir das chibatadas", diz a fiscal de caixa Mônica Silva, de 27 anos.Antes da partida, o maquinista coloca a cabeça para fora da janela e olha para trás. As portas estão escancaradas, mas ele parte mesmo assim. O contínuo A., de 26 anos, usa pedras para impedir o fechamento automático das portas. "Ou faço isso ou chego ensopado no trabalho." Grande parte do vagão concorda. O calor é insuportável. A brisa da porta aberta alivia. Se chover, não tem jeito. A viagem tem de ser de porta fechada.Todos se espremem. No bagageiro, bolsas e marmitas chacoalham. Da Estação Deodoro até São Cristóvão, as condições da linha férrea são degradantes. Lixo e ratazanas estão próximos dos trilhos. O trem passa ao lado de valões. Entre as Estações Meier e São Francisco Xavier, a composição corre rente à Favela do Rato Molhado. "Agora, este é o trem da chibata e nada vai mudar isso", constata Mônica.

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