Estrangeiros invadem barracões de escolas do Rio. Para trabalhar

Em intercâmbio, além de aproveitarem turismo, eles prestam ajuda voluntária para a folia

Pedro Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Eles poderiam estar no frenético Mardi Gras de Nova Orleans, nos Estados Unidos, ou apreciando o luxuoso desfile de máscaras de Veneza, na Itália. Mas escolheram suar a camisa pintando e bordando antes do carnaval nos abafados barracões das escolas de samba do Rio. Em sua maioria ingleses, um grupo de turistas chegou mais cedo ao Rio, e não apenas para noitadas na Lapa e tardes de ócio sob o sol de Ipanema. Os voluntários querem "ver o outro lado do carnaval", como diz a inglesa recém-formada em Artes Karen Spendier, de 26 anos. Ela e outros oito voluntários estão distribuídos pelos barracões do Salgueiro e da Mangueira trabalhando nos ateliês de fantasias e adereços, no ritmo acelerado que antecede o desfile no Sambódromo. O intercâmbio, chamado por eles de voluntariado, é feito com despojamento carioca - a receita do grupo para ficar longe da violência contra turistas na cidade. A aula de segurança foi a primeira lição que aprenderam ao pisar na cidade. A ONG inglesa I-to-I, que trouxe o grupo, recomendou a eles que andem sem relógios, jóias, máquinas fotográficas e levem pouco dinheiro. Apenas no ano passado a ONG teve 210 estrangeiros trabalhando em projetos sociais no Rio, em Salvador e Santarém (PA). "Nunca registrei uma ocorrência grave", comemora o coordenador do voluntariado, Luis Felipe Murray.De short e camiseta surrada, o único australiano do grupo, Dean Le Blanc, de 20 anos, segue fielmente as regras e espera ansioso pela maratona momesca com os voluntários, que incluirá o desfile numa ala da Império da Tijuca e folias pelos blocos de rua. "O importante é não parecer um turista e aproveitar. O carnaval é a maior festa do mundo e estou excitado pelo que vou ver pelas ruas.""Eu queria estar envolvida no carnaval. No barracão, eu converso com as pessoas, saio com elas e vou para locais que nunca iria se fosse turista", afirma Sarah Wilton, de 19 anos. Além da labuta quatro dias na semana, a estudante de Arte curte, com uma boa dose de coragem, a noite do Rio, em todos os seus contrastes. Em uma sexta-feira, ela requebrou ao som do funk na Via Show, a polêmica casa de shows na Baixada Fluminense que volta e meia aparece no noticiário policial. No sábado, jantou e relaxou no sofisticado 00, na Gávea, na zona sul. "Tive medo na Via Show. No dia seguinte estava no 00, que é muito parecido com os lugares que freqüento na minha cidade. Nunca vi um lugar com tantas diferenças sociais como o Rio", diz a britânica Sarah, que vive no condado de Derbyshire."Aqui as festas vão até tarde. Em Londres, tudo termina às 3 horas. No Rio, às 9 horas, estou voltando para casa", conta, com entusiasmo, Lizzie Hall, de 18 anos. A Lapa, um dos berços do samba e ícone da miscelânea social carioca, é o point preferido da noite. "Adorei a Lapa. Estamos aprendendo a sambar. As pessoas querem nos tocar e tirar fotos apenas porque ficam impressionadas com a cor da nossa pele", afirma a deslumbrada inglesa de Norwick Rebecca Vitkovich, de 18. A pós-adolescente, ainda com espinhas no rosto, diz que ela e a amiga Lizzie se sentem como popstars no Rio - mas as duas juram que não embarcaram em romances nos trópicos. As noitadas não comprometem o trabalho, segundo os chefes dos ateliês. "Eles são muito disciplinados e aprendem rápido os macetes", diz o chefe do ateliê do Salgueiro, Paulo Henrique Caetano. "Qualquer problema de comunicação recorremos a desenhos, gestos ou ao dicionário, que eles sempre carregam. No final, sempre nos entendemos", conta a chefe do ateliê de costura da escola vermelha e branca, Martha Prado. Eles garantem que os estrangeiros não tiraram empregos nem causaram ciúmes nos funcionários, em sua maioria de comunidades carentes do Rio. Em um tom mais sério, a estudante de Direito inglesa Gemma Tilly, de 22 anos, critica a violência urbana que ela testemunhou nas incursões policiais no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, bairro onde está hospedada. "Mas o espírito solidário dos brasileiros compensa um pouco isso. Na única vez em que uma amiga ficou perdida no centro do Rio, uma mulher deu todas as informações e ainda orientou o taxista."O estudante de Economia James Burkill, de 18 anos, é britanicamente pessimista sobre as mazelas da cidade que ele diz adorar. "Não creio que isso melhore a curto prazo. Acho que a minha maior contribuição é estar aqui. Afinal, não basta estudar os modelos estruturais econômicos, é preciso ir aos lugares para saber como funcionam as coisas."

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