Estrangeiros registram rotina do tráfico no Rio

Documentário foi dirigido por Jon Blair, ganhador do Oscar em 1996

Alexandre Rodrigues, RIO, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Com os olhos apertados, o pastor reza tocando um dos ombros do traficante, que carrega pendurado no outro um fuzil. Enquanto os olhos do rapaz parecem se elevar durante a bênção, uma voz estridente no rádio transmissor que segura na mão direita não para de dar conta da "atividade" nas entradas vigiadas de seu território. "Peço a Deus que me dê sabedoria", roga o líder do tráfico de 15 favelas da zona oeste do Rio. À vontade diante da câmera, sem esconder o rosto, ele reivindica autoria de sentenças de morte, exibe armas sofisticadas e jura amor à família com o peito enfeitado por um medalhão de ouro.A cena poderia estar num filme de ficção, mas é vida real. Rodado em favelas do Rio em setembro e outubro de 2008 e recém-montado em Londres, o documentário Dançando Com o Diabo na Cidade de Deus registra, sem equipamentos escondidos, o cotidiano armado de ruas, a adrenalina de policiais em operações nas quais não veem sentido, a pose de traficantes que seduzem meninas em bailes funk. O filme foi dirigido pelo cineasta sul-africano naturalizado britânico Jon Blair - ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 1996 com Anne Frank Remembered -, que busca distribuidor para exibi-lo no Brasil. Com equipe de cinco pessoas, passou seis semanas no Rio entre traficantes e policiais. Nada foi gravado na Cidade de Deus. A referência é o Rio como cidade do Cristo Redentor. "Não aguento mais tirar a vida de ninguém. Não é vida viver correndo da morte, ter de matar amigo", diz um traficante que afirma querer mudar de vida, mas não ter escolha. Outros personagens garantem ter achado a saída. É o caso do pastor Dione dos Santos, ex-militar que chegou a treinar traficantes antes de decidir evangelizá-los. Foi acompanhando Dione num tour por bocas de fumo em 2007 que o jornalista inglês Tom Phillips e o fotógrafo americano Douglas Engle, que vivem no Rio, começaram a ter acesso ao cenário do filme. Após registrarem numa matéria do diário britânico The Guardian a tentativa de Dione de tirar jovens do tráfico "armado apenas com uma Bíblia", continuaram a visitar favelas com o pastor, dono de sólido respeito por parte de traficantes. Após mais de um ano, eles idealizaram o documentário e convidaram Blair, que o dirigiu e coproduziu com recursos de TVs europeias. Segundo Phillips, não houve pagamento pelos depoimentos. A equipe fez uma doação para a igreja de Dione após as filmagens, mas não havia acordo prévio com essa condição. "Os traficantes resolveram falar porque querem desabafar", acredita Engle, surpreso com a decisão deles de não esconder o rosto. Para Phillips, o fato de serem estrangeiros foi essencial para cimentar a relação. O longa mostra como tráfico e religião ocupam o espaço da ausência estatal dessas áreas. O chefe de uma favela mostra a praça que mandou construir no lugar de um lixão e se orgulha do "concurso cultural" que promove entre crianças: o autor da melhor escultura de lixo reciclado ganha uma reluzente motocicleta de brinquedo. No anexo da igreja de Dione, um hospital improvisado abriga jovens enfileirados no chão com fraturas, cortes, queimaduras. São os infratores das leis internas, salvos da morte pelo pastor. "Tá doendo? É para não fazer mais", diz Dione a uma das vítimas. Sem contestar o método, ele usa imagens dos feridos como alerta aos fiéis nos cultos. "Demos pau mesmo. Era para ter morrido. Morte mesmo, cortar tudinho e depois tacar fogo", diz o chefe do tráfico sobre um castigado que misturou fermento na cocaína que tinha de vender. O tirano é o mesmo que se diverte num fliperama tentando resgatar um brinquedo. Exibindo o colete à prova de balas que recebeu de um policial corrupto, conta que sua folha mensal de propinas e salários é de R$ 94 mil. "Querendo ou não, essa é uma firma que emprega muita gente", diz seu auxiliar. Para evitar um filme simpático ao universo do tráfico, Blair retratou também os policiais, terceiro vértice da realidade que focou. As imagens de operações policiais são algo já repetitivo, mas as entrevistas realçam o lado humano dos agentes, revelando o despreparo técnico e emocional. "É preciso muita inteligência para chegar a uma apreensão dessas, mas fizemos só no faro policial", se orgulha um agente ao comemorar o estouro de um paiol de drogas numa favela ao custo de intenso tiroteio. "Na terra de vocês, o que fazemos aqui é chamado loucura", diz um policial para a câmera. "A gente vem, troca tiro, vai embora e fica tudo igual. Por que a gente vem? Vocês têm uma resposta?", pergunta outro. O filme não dá.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.