Estranho no ninho

Nesses tempos esquisitíssimos de reconhecimentos tardios e consolidação de valores invertidos, Itamar Franco se vai deixando o legado da celebração de seu período na Presidência da República como aquele em que o Brasil finalmente conseguiu pôr fim à inflação que infelicitava a todos - a maioria - que não viviam de seus maléficos efeitos.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2011 | 00h00

Disso muito se falou. Várias páginas foram preenchidas com relatos sobre o político Itamar desde sábado de manhã, quando o ex-presidente morreu vítima de um AVC no Hospital Albert Einstein, onde se internara em junho para o tratamento de leucemia.

Faltou, no entanto, ressaltar suficientemente o que se poderia chamar de a última façanha de Itamar: sua atuação durante quatro meses no Senado.

Se nada mais ele tivesse feito, só o desempenho na volta à Casa em que atuara antes de ser vice, presidente e governador, já teria valido uma vida.

Um homem de temperamento mercurial, mas, em compensação, de conduta vertical.

Nem sempre agradável no trato. Muitas vezes francamente desagradável com aqueles que não incluía no rol dos santos de sua devoção e que tampouco conferiam a ele tal deferência.

Mas, mesmo a esses, Itamar Franco fez mudar a percepção a respeito dele quando por diversas vezes nesse curto período deu repetidas lições do que significa ser um congressista digno da delegação recebida nas urnas.

Em alto em bom som, registrou seu desagrado ao constatar a queda de qualidade e a perda do sentido de autonomia do Parlamento em relação à época em que havia sido senador. Atendo-se ao regimento, à lógica, à hombridade e ao respeito aos fatos protagonizou meia dúzia de embates memoráveis com José Sarney, com colegas de governo e oposição, fazendo-os ver o quanto a submissão do Congresso ao Executivo é nociva para a democracia.

Na comparação com a altivez dele, ressaltava-se a pequenez do colegiado. Esteve nesses quatro meses como um estranho no ninho, com tudo o que de positivo há nessa definição.

Quanto ao Plano Real, merece o crédito. Não o dístico de "pai do Real", pois não foi dele, e sim de seu quarto ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso - cuja obra de governo é agora recuperada depois de anos de desconstrução -, a iniciativa de reunir uma turma de excelentes economistas e respaldar a execução de um processo de combate à inflação com a adesão da sociedade e a introdução da estabilidade econômica como conceito indissociável da vida nacional.

Mais correto não seria atribuir a Itamar Franco a paternidade, mas a inspiração do Plano Real. Deve-se a ele justamente a percepção de que alguém que não sendo economista, mas tendo a sensibilidade do sociólogo experiente e do intelectual forjado por décadas de estudos do Brasil, poderia fazer uma tentativa exitosa.

Deve-se a Itamar a ideia e a insistência, a nomeação quase à revelia de um Fernando Henrique que àquela altura já urdia na mente a hipótese de uma candidatura presidencial, mas, preocupado com a monstruosidade do problema, resistia a aceitar uma missão à época vista como impossível.

A mágoa. Itamar e os mineiros que o cercavam acusavam Fernando Henrique de "ingratidão". Por considerar que FH não havia sido generoso o bastante no tratamento reservado ao grupo no novo governo e à insuficiência de reconhecimento em sua contribuição ao combate da inflação.

Mas o maior desgosto de Itamar Franco em relação a Fernando Henrique foi a quebra da promessa que o sucessor havia feito ao antecessor de fazê-lo candidato à Presidência em 1998.

Já no segundo ano de governo o PSDB passou a engendrar o plano da reeleição para assegurar a continuidade sem a troca de presidente.

Biônicos. Com a posse do suplente de Itamar, chegam a 15 os suplentes de senador a assumir cadeira no Senado sem ter chegado lá com o capital de um único voto.

Praticamente 20% da Casa.

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