Guia Medianeira/EFE
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Aluno atira em colegas e fere 2 no PR; polícia cita bullying

Caso aconteceu em escola pública da pacata cidade de Medianeira; pai de vítima relata que atirador não acertou alvos que desejava

Ana Paula Niederauer, Fábio Donegá, Felipe Cordeiro, Isabela Palhares, Paula Felix e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 11h55
Atualizado 29 Setembro 2018 | 16h54

CURITIBA, MEDIANEIRA E SÃO PAULO - As agressões verbais e físicas se sucediam, relata a polícia. A ideia de se vingar do bullying cresceu, com inspiração em vídeos de atentados nos Estados Unidos e no Brasil, como em Realengo. Nesta sexta-feira, 28, um estudante de 15 anos do ensino médio pegou uma arma e atirou nos colegas em uma escola estadual da pacata cidade de Medianeira, a 60 quilômetros de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná. Tinha uma lista para livrar os amigos - no fim, dois acabaram baleados.

O atentado aconteceu no Colégio Estadual João Manoel Mondrone. “Era um dia de aula normal, os alunos foram para a primeira aula, mas os dois envolvidos (o atirador e um colega que o acompanhava) não entraram na sala em um primeiro momento. A pedagoga os chamou para ver o que tinha acontecido. E depois chamou mais três ou quatro meninos da sala para conversar, ver o que tinha acontecido”, relatou o diretor do colégio, Darlan Chiamulera. “Ao saírem dali, eles foram até a sala de aula e um deles começou a atirar”, completa, destacando que não havia relatos que desabonassem a conduta escolar anterior dos jovens, que foram detidos.

Alunos da mesma sala do atirador, porém, ligaram o caso ao bullying. O agressor, que veio para a escola no início do ano, não gostava de apelidos relativos ao peso ou ao fato de morar na área rural. Os colegas o chamavam de “Zé Patrola” e “gordo”.

“A motivação foi o bullying. A ideia (colocada em prática nesta sexta) começou a florescer e foram buscar vídeos e tutoriais de atentados que ocorrem nos Estados Unidos e também aqui no Brasil, como em Realengo e Goiás. Era só uma ideia no início. Como o bullying não cessava, eles chegaram ao extremo”, detalha o delegado Denis Merino.

A ação

À tarde, a polícia tentou checar a veracidade de um vídeo supostamente gravado pelo jovem atirador. Realizado em uma estrada rural, sem mostrar o rosto, ele anuncia o ataque: “Tô muito ansioso, passando mal. Peço aos familiares que tenham compreensão por causa dos meus atos. Seus filhos me humilharam, me ameaçaram de uma maneira que não tem mais perdão”. No fim, o jovem pede para que as pessoas não culpem sua atitude por causa de influências externas. “Se for para culpar algo, culpem seus próprios filhos.”

Segundo testemunhas, antes de atirar nos estudantes, o jovem de 15 anos pediu para que 5 do grupo dos 35 se retirassem, pois tinha alvos definidos - 11 seriam supostamente citados no vídeo - e não queria ferir amigos. Na sequência disparou, atingindo dois colegas. 

O diretor do colégio relatou momentos de terror. “Não estamos preparados para enfrentar uma situação dessas. Na hora eu fui atrás dos alunos, seguindo-os, porque eles continuaram andando na escola, armados. Eles não me tinham como alvo, senão poderiam ter atirado. Eu passava pelas salas e pedia para que os alunos trancassem as portas, mas alguns, desesperados, correram; outros deitavam no chão.” 

 

Vítimas

O jovem ferido com mais gravidade não era um dos alvos. “Meu filho ouviu o nome dele ser chamado (para sair da sala), mas estava compenetrado nos estudos e não deu importância. Depois, ele foi alvejado e não viu mais nada. Agora está com uma bala alojada na segunda vértebra e com o risco de perder a mobilidade total ou parcial das pernas”, diz o marceneiro Eder Samuel Facundo. O jovem hospitalizado disse ao pai que o outro baleado, na perna (sem gravidade), também foi confundido pelo atirador, por possuir um irmão gêmeo.

Facundo diz que o filho nunca praticou bullying. “O B. não é desse espírito, nem de longe é de querer zoar os outros”, afirmou. “Ele saiu para estudar.” Seu filho foi atendido no Hospital Municipal Padre Germano Lauck, em Foz do Iguaçu, e transferido no fim da tarde para o Hospital do Trabalhador, em Curitiba. “Mesmo com medicamento a dor continua forte.”

A outra vítima foi atendida na Hospital e Maternidade Nossa Senhora da Luz, em Medianeira, e já foi liberada.

 

‘Nunca imaginei que isso poderia acontecer’, diz mãe

O delegado Denis Merino, de Medianeira, encontrou na casa do atirador uma espingarda de pressão e recortes de revistas e “desenhos delicados, com símbolo do nazismo”. Merino autuou o pai do jovem por posse de arma e omissão de cautela na guarda. 

O atirador fez uso de uma garrucha calibre 22 e desferiu pelo menos seis disparos na sala de aula. Na mochila da escola de um dos jovens foram apreendidas bombinhas caseiras e rojões, que estavam amarrados com fita em um litro de álcool. 

Os pais do atirador disseram saber do bullying e tentavam orientá-lo. “Ele falava que sofria preconceito por ser ‘gordinho’ e do interior, mas eu sempre conversei com ele a respeito. Nunca imaginei que isso poderia acontecer. Ele é um menino tranquilo, nunca teve problema na escola”, disse a mãe, que não se identificou. Ela e o marido estavam trabalhando quando vídeos do atentado começaram a ser divulgados nas redes sociais.

O diretor do colégio, Darlan Chiamulera, informou que a escola deve reabrir na terça. “Temos de usar o fato, por mais trágico que seja, como instrumento para falar do tema, mostrar aos outros a importância de falar, e não de agir com violência. Não é com arma que se soluciona.” 

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Por mais que haja treinamento para incêndio, para atentado não existe.
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Darlan Chiamulera, diretor

Bullying

O bullying é caracterizado como ato de violência física ou psicológica que acontece de forma intencional e repetitiva. A intimidação normalmente se dá de forma velada. Desde fevereiro de 2016, uma lei federal estabelece como responsabilidade das escolas a promoção de medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao bullying.

"Mais uma vez um caso grave acontece no País e joga luz à falta de um trabalho efetivo contra o bullying nas escolas. Ainda estamos muito longe de ter esse assunto sendo trabalhado sistematicamente, e com a importância que merece, nas escolas", diz Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que reúne especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) para estudar a convivência escolar e bullying. 

Para ela, todas as crianças envolvidas - tanto os meninos que fizeram o ataque, como os que foram alvo - são vítimas da ausência de ações para melhorar a convivência escolar. "Esses meninos foram vítimas de intimidação e humilhação por muitos anos. Agora, eles se tornam os autores da violência. Nada justifica a violência que cometeram, mas nós precisamos cuidar dessas duas crianças", diz. 

Rosane Voltolini, coordenadora da Associação pela Saúde Emocional das Crianças (Asec), também destaca que o bullying precisa ser tratado com seriedade, já que se trata de um fenômeno em que vítimas e autores podem trocar de papéis, propagando a violência. "Quem pratica o bullying tem um problema, porque não é normal você sentir prazer em intimidar, causar dor ao outro. Precisamos ajudar também os autores. Situações como a desse menino mostram o que acontece com alguém que aguentou essa dor e humilhação por tanto tempo quieto", diz. 

Prevenção

Luciene explica que um trabalho sistemático contra o bullying começa na prevenção dos casos e na melhora do ambiente escolar, envolvendo todas os alunos, professores e funcionários.  O bullying é um fenômeno muito complexo. Não adianta só fazer um dia de discussão sobre ele ou espalhar cartazes pela escola. Tem que ser um trabalho de todos os dias, uma mudança no comportamento de todos", afirma. 

Para Rosane, as escolas erram ao pensar que apenas fornecer informações sobre esse tipo de agressão é o suficiente para combater o bullying. Ela explica que é preciso trabalhar a prevenção e a promoção da saúde emocional para que jovens e crianças saibam lidar com as emoções e a pedir ajuda. "Os alunos precisam conseguir entender seus sentimentos e os dos outros para só assim terem recursos para lidar com seus problemas, saber pedir ajuda e denunciar situações de intimidação", explica. 

Luciene ressalta que, além de muitas escolas falharem na promoção de ações contra o bullying, o poder público também falha ao não fiscalizar as unidades para monitoramento dos casos e de práticas preventivas.

Para lembrar

Em outubro do ano passado, um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro em uma sala de aula do Colégio Goyases, em Goiânia. Filho de policiais militares, ele usou a arma da mãe, que havia levado à escola particular escondida na mochila. Segundo a Polícia Civil, o rapaz sofria bullying e o crime foi premeditado. /COLABOROU JULIO CESAR LIMA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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