Estudante vítima de anorexia fez dieta de água e peixe

Dietas radicais à base de água e peixe. Essa era a principal artimanha da estudante universitária Carla Sobrado Cassalle, de 21 anos, para buscar um emagrecimento rápido. A jovem morreu com suspeita de complicações desencadeadas por anorexia nervosa e bulimia, na última quinta-feira, em Araraquara, a 275 quilômetros de São Paulo. Ela estava internada desde segunda, depois de sofrer duas paradas cardíacas. Carla media cerca de 1,70 metro e pesava 45 quilos. Esta foi a segunda morte em decorrência da doença em dois dias. A primeira vítima, a modelo Ana Carolina Reston, também de 21 anos, morreu na terça-feira de infecção generalizada causada pela anorexia.A tia de Carla, a advogada Ilka Sobrado lembra que a jovem dificilmente comia arroz e feijão, pois achava que a comida engordava, além de evitar frituras e alimentos gordurosos. Carla chegou a passar por uma nutricionista, mas, de acordo com a tia, não aceitava o acompanhamento profissional. A moça nunca aceitou que estava doente e criticava os familiares dizendo que tudo se tratava de mera "implicância".Durante uma etapa do tratamento de anorexia, a universitária chegou a ser monitorada durante 24 horas por uma enfermeira para que não vomitasse a comida. Segundo a tia, é difícil dizer exatamente quando começaram os primeiros sintomas. No início, a família achava que era algo normal para uma jovem que buscava ficar em forma. Até porque, Carla praticava esportes, entre eles a natação, que seguia regularmente desde os 9 anos de idade.A própria tia reconhece que depois de maltratar o corpo com dietas radicais, a estudante passou a tomar remédios diuréticos para perder mais peso. A relação de Carla com os pais também era outro fator agravante. Eles não moravam juntos e o pai não esteve próximo na criação da jovem. Mesmo assim, segundo a tia, a menina lidava bem com a ausência paterna.Considerada uma bela moça e sempre bem vestida, a estudante chegou a ser convidada para trabalhar como modelo, mas, segundo a tia, não aceitou o convite. Ela preferiu seguir o sonho de ser estilista e, por isso, ingressou no curso de Moda da Faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo. A família também aprovava a opção profissional da jovem, que se mostrava intimidada com o mundo das passarelas. A família admite que o contato com modelos possa tê-la influenciado a adotar regimes descontrolados. A tia espera que a morte de Carla sirva de alerta para outras moças que buscam um emagrecimento exagerado à base de dietas sem controle nutricional.ModeloAspirante ao mundo da fama, a modelo Ana Carolina Reston encerrou sua carreira ao chegar aos 40 quilos de peso em 1,74 metro de altura. Depois de três semanas internada por uma dor nos rins, Carolina morreu de infecção generalizada em decorrência da anorexia nervosa.A garota também sofria de bulimia, nome dado a doença em que o vômito é provocado depois da ingestão de comida. A doença não era segredo entre as modelos que conviviam com ela. Apesar de ser muito tímida e fechada, para as colegas era impossível não reparar em sua magreza e na quantidade de vezes que ia ao banheiro para forçar o vômito."Ela não comia nada, ficava deprimida quando perdia trabalhos e se achava gorda", disse a modelo M.G., de 22 anos, que morou com Ana Carolina no México por cerca de dois meses. "Depois da morte dela, ficamos nos perguntando se não poderíamos ter feito mais. Acho que deveria ter feito ela comer à força.""Muita gente tentou ajudar. A doença era muito visível. A última vez que a vi, antes de ir para o Japão, ela estava com 81 centímetros de quadril", disse M.G..Se a busca pela fama fez a modelo Ana Carolina adoecer, as amigas de Carla acreditam que o preconceito enfrentado na infância, quando era considerada uma menina gordinha, pode ter sido o responsável pela doença, segundo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo."Na infância, Carla sempre foi gordinha", disse Gisela Bevilacqua Rolssen, 21, sobre a amiga com quem estudou junto da quarta série até o ensino médio. No Colégio Progresso, em Araraquara, Carla tinha o apelido de "Carla pão-de-queijo". AgênciasPara evitar tragédias como a de Ana Carolina, as maiores agências de modelos do País reuniram-se na sexta-feira para discutir novas normas de trabalho. Mega, L´Equipe, Marilyn e Elite foram decidiram que todas as modelos contratadas, independentemente da idade e experiência, terão de apresentar atestado de saúde. ´Em outros setores, exames de saúde são comuns´, disse Simone Lascani, diretora da Elite.Se a candidata estiver saudável, começa a trabalhar na empresa. "Mas, se houver problemas, terá de se tratar para depois pensar em desfilar", afirmou Ademir Albino, responsável pela administração das carreiras das modelos da L´Equipe.Se a nova norma não impede que as adolescentes venham a ter problemas de saúde, tentam evitar que garotas doentes ingressem numa carreira de risco. "Uma empresa não é uma instituição de caridade", disse o advogado trabalhista Antônio Carlos Arruda, professor de Direito Constitucional do Centro de Aperfeiçoamento e Estudos Superiores da Polícia Militar. Ele lembrou que em todas as empresas há exame de saúde no processo de admissão. "Pessoas doentes não podem trabalhar, mas a empresa deve orientá-las a um tratamento", completou.Há quem não veja com bons olhos as novas regras. "Acho que pode levar a uma atitude preconceituosa e de discriminação", disse a advogada trabalhista Sônia Mascaro. A maioria das agências tem médicos, psicólogos e nutricionistas à disposição das modelos, inclusive de plantão durante a madrugada.

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