Estudioso vê renúncia de Jânio como ''pedagógica''

Para autor de biografia de João Goulart, ''sociedade aprendeu a valorizar a democracia''

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2011 | 00h00

A renúncia do presidente Jânio Quadros, somada aos três anos de turbulência política que desembocaram no golpe militar de 1964, teve um "efeito pedagógico" na história política do País, constata o historiador e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jorge Ferreira. "O saldo mais importante foi que a sociedade brasileira aprendeu a valorizar a democracia. Hoje o Brasil vive conflitos políticos, sim, mas ninguém fala em fechar o Congresso, em destituir um presidente."

Não é só pelos 50 anos da renúncia de Jânio que Ferreira diz isso. É que, como veterano estudioso da política brasileira daquele período, ele passou dez anos pesquisando e acaba de concluir o livro João Goulart - Uma Biografia, um estudo sobre o presidente deposto que "não se concentra naqueles dois dias finais de seu governo, 31 de março e 1.º de abril". Com 714 páginas, o livro (pela ed. Civilização Brasileira) será lançado nesta terça-feira, no Rio (na livraria Blooks/ Unibanco Arteplex), e dia 31 em São Paulo (na Casa do Saber).

"Jango ficou, nos livros e na memória de muitos, encapsulado naqueles dois dias, seja nos aspectos negativos e nos positivos", ressalta o historiador. Ele rejeita a "confluência de interesses para desqualificar sua imagem" - de incompetente e despreparado, no dizer da direita, e de burguês e populista, nos manuais da esquerda.

Ferreira procura mostrar que Jango foi muito mais que isso. Que era um grande articulador, um líder da causa das reformas, o herdeiro político de Getúlio Vargas. Foi deputado estadual, federal, presidente do PTB (então um dos dois maiores partidos do País), ministro do Trabalho, presidente do Senado, duas vezes vice-presidente e, por fim, presidente. Tinha uma enorme popularidade. Juscelino foi eleito presidente com 3 milhões de votos, Jango se elegeu vice com 3 milhões e 600 mil votos. O problema é que ele não teve êxito na difícil tarefa de recuperar um País que herdou "em completo descalabro financeiro". Mais que isso, "num agudo processo de radicalização entre a direita e a esquerda" que as levou ao confronto e ao golpe militar de 1964.

A biografia, no entanto, não se detém nesses três ingratos anos na Presidência: a obra traz à luz um Jango cuja infância ou adolescência ninguém conhece, e que, depois da queda, enfrentou dias terríveis no exílio, impedido de voltar ao País. "Fiz um esforço para evitar admirá-lo ou desprezá-lo, apenas compreendê-lo", avisa o autor.

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