Estudo mostra que milícia não acaba com o tráfico no Rio

Em 27 meses, foram registradas 381 denúncias anônimas de tráfico de drogas em áreas dominadas por milícias

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2008 | 21h25

No período de 27 meses, foram registradas 381 denúncias anônimas de tráfico de drogas em áreas dominadas por milícias, revela a pesquisa "Seis por meia dúzia? - Um estudo exploratório do fenômeno das chamadas milícias no Rio", realizada pelo pesquisador Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).   Veja também: Presidente do Sindicato dos Securitários é assassinado no Rio Polícia do Rio terá novo 'caveirão' com ar-condicionado Bope ocupa a Vila Cruzeiro para fazer operação   A pesquisa avalia que o resultado - obtido a partir de dados do Disque-Denúncia, no período de janeiro de 2006 a abril de 2008 - "desfaz o mito de que as milícias representam uma alternativa ao domínio de narcotraficantes ou uma cruzada contra o narcotráfico". "Está claro que essa idéia de que a milícia é contra o tráfico não se sustenta", declarou.   Também foram registradas nestas áreas 1.549 denúncias de extorsão e 445 de ameaça no período, e 507 acusações de homicídio. "Acusações de extorsão e ameaça eram esperadas, em função da cobrança de taxas (dos moradores). E as mais de 500 acusações por homicídio confirmam a natureza violenta destes grupos", diz o pesquisador.   Para ele, o mais surpreendente foi o grande número de denúncias de tráfico de drogas. O tráfico, avalia Ignacio Cano, pode não ser a atividade principal nem a fonte central de lucros destes grupos, mas as denúncias freqüentes neste sentido revelam que muitos deles toleram ou praticam o tráfico dentro de suas áreas de influência.   O período em que houve o maior número de queixas contra milícias - não só em relação à presença de tráfico - foi nos primeiros meses de 2007 e 2008. No ano de 2006 houve apenas uma em março, outra em junho, e 109 em dezembro. O mês em que foi registrado o maior número de denúncias foi março de 2008, com 369. Em todo o período analisado foram recebidas 3.469 denúncias. "O fenômeno parece adquirir um comportamento cíclico, típico dos problemas de segurança pública no Rio." Quanto à localização, 84% das denúncias eram referentes à capital. Dentro do município do Rio, os bairros que receberam mais denúncias são da zona oeste.   Durante a pesquisa, foram realizadas 46 entrevistas com moradores de áreas dominadas por milicianos. "Conseguir testemunhos sobre milícias se apresentou mais árduo do que obter depoimentos sobre o tráfico", disse o pesquisador. Na maioria dos casos os entrevistados afirmaram que a venda de drogas é estritamente proibida, sob pena de morte, mas também houve relatos de que ela é tolerada ou até controlada pela milícia local.   Políticos foram citados pelos entrevistados como líderes de milícias, entre eles os deputados estaduais Jorge Babu (PT) e Natalino Guimarães, preso em julho e expulso do DEM. "Não parece, portanto, muito difícil investigar quem controla estes grupos", diz o pesquisador. "O Estado e a sociedade do Rio precisam se perguntar até quando vão permitir que, em pleno século XXI, boa parte dos seus habitantes continue vivendo na Idade Média."   Babu negou nesta quinta-feira, 28, a acusação. "Não tenho p. nenhuma a ver com isso. Até promotor já falou essa m. e não conseguiu provar. É palhaçada. Vocês vão ficar abanando essa p.?", disse, e desligou em seguida. Financiada pela fundação alemã Heinrich Böll, a pesquisa foi publicada no livro Segurança, Tráfico e Milícias no Rio de Janeiro, lançado também nesta quinta.   Relatório   Milícias já dominam 171 comunidades no Estado, 125 delas na capital - principalmente nas zonas oeste e norte -, segundo relatório da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria da Segurança revelado pelo Estado no mês passado. No documento, foram identificadas 521 pessoas acusadas de envolvimento com grupos paramilitares. O relatório cita seis políticos: além de Natalino, cinco vereadores. A lista incluía 156 policiais militares, entre os quais sete oficiais.   Havia ainda 18 policiais civis, incluindo um delegado da Baixada Fluminense; 11 militares do Corpo de Bombeiros; três agentes penitenciários e três militares das Forças Armadas. Segundo o levantamento, 119 comunidades das 171 onde as milícias estão atuando, ou seja, 69,6% (mais de dois terços) "não pertenciam (antes) a nenhuma facção criminosa" das três que dominam o tráfico no Rio.

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