MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

‘Eu choro todos os dias’, diz mãe de vítima de latrocínio no Rio

Número de latrocínios subiu 70% em um ano no Estado, imerso em crise de segurança; secretaria destaca apoio federal nas investigações

Marco Antônio Carvalho e Roberta Pennafort, Impresso

30 Outubro 2017 | 03h00

RIO - Foi no Rio que houve a alta mais relevante nos latrocínios em todo o País, segundo o 11.º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que será divulgado nesta segunda-feira, 30. O número passou de 131 ocorrências em 2015 para 225 no ano seguinte, com crescimento de 70% e a maior elevação absoluta entre os Estados. O fenômeno ocorre em meio à crise fiscal do Estado, com atrasos no pagamento do salário dos servidores e dificuldades de manter políticas públicas, como o sistema de gratificações para agentes de segurança e das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

O cenário fez com que o presidente Michel Temer autorizasse há um mês o uso de militares das Forças Armadas em áreas como a Favela da Rocinha, na zona sul, onde facções rivais disputam o comando do tráfico. Os militares também têm apoiado as polícias em operações para localizar traficantes e armas.

Diretor do Instituto Igarapé, Robert Muggah vê “aumento dramático da violência” no Rio como resultado de uma “ressaca” após os grandes eventos sediados lá, como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada no ano passado. “O Estado enfrentou cortes orçamentários na segurança justamente quando o que precisava era aumentar investimentos”, afirma.

Muggah vê o uso das tropas só como uma anestesia. “Representa um alívio temporário, mas não lida com os fatores estruturais que levaram o Estado a essa situação.” Para ele, o Rio precisa retomar seu programa de metas, criado em 2009, com pagamento de gratificações extras para as áreas que atingiam os objetivos traçados. O Estado tem tido dificuldades para manter o sistema de bônus. “O programa foi extremamente eficaz para mobilizar os policiais na redução dos homicídios.”

Luto

Os 34 meses que separam a data da morte do seu filho para hoje não diminuíram a dor da jornalista Mausy Schomaker, de 66 anos, mãe de Alex Schomaker Bastos. Aos 24 anos, a poucos dias da colação de grau no curso de Biologia, ele foi assassinado com seis tiros em ponto de ônibus próximo ao câmpus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em Botafogo, na zona sul, por bandidos que queriam seu celular. Era a noite de 8 de janeiro de 2015.

Em casa, Mausy havia recebido uma mensagem do filho: ele já estava saindo da faculdade, onde tinha ido acertar detalhes da formatura. O trajeto até o Flamengo, onde morava, não levaria mais do que vinte minutos naquele horário, às 21h30. Mausy já pensava na comida que iria esquentar para o jantar.

Mas quem chegou não foi Alex, mas a polícia, com a notícia do crime. Dois homens haviam aparecido em duas motos e avistaram Alex com o celular na mão. O rapaz se assustou. Foi jogado no chão e alvejado quando um determinou ao parceiro: “Mata logo”.

Desde então Mausy e o marido, o também jornalista Andrei Bastos, ouvem o elogio: “Nossa, como vocês são fortes e corajosos!” Isso porque, mesmo abalado, o casal se mobilizou para transformar o espaço onde fica o ponto de ônibus numa praça, com apoio da prefeitura do Rio. Com o nome de Alex, o local tem brinquedos para crianças e um armário cheio de livros doados, para quem quiser pegar. Antes abandonada, a praça passou a ter as árvores podadas. O ponto de ônibus, pintado de branco pela família, agora está mais iluminado.

“Não sou forte nem corajosa”, rebate Mausy, que antes da missa de sétimo dia correu a um tatuador, com o marido, para gravarem na pele cópias de tatuagens que o filho tinha. “Eu choro todos os dias, quando ando na bicicleta dele, quando vou ao supermercado e, por segundos, penso em comprar o xampu que ele gostava”, conta. “Mas desde o início vi que não podia ficar na cama. Não posso sair na rua dizendo o quão triste estou, da saudade horrorosa.”

Pelo local onde Alex morreu, porém, ela ainda não consegue passar. “Não passo pela praça. É muito difícil pisar onde seu filho caiu morto.”

Os dois assassinos foram localizados cinco meses depois do crime e condenados a 28 anos de prisão. Mausy não se sente reconfortada por saber que estão fora de circulação. “Cada vez que vejo uma mãe abraçada a um caixão penso que a morte do Alex não mudou nada. De lá para cá, só piorou”, lamenta. Os pais processam o Estado e a prefeitura por não terem garantido condições ao filho de andar de ônibus à noite.

“Ando de madrugada, às vezes torcendo para ser assaltada. Acho que vou bater, matar, morrer. A gente não tem medo mais, fica meio vazia mesmo.”

Integração

Em nota, a Secretaria de Segurança do Rio disse que tem trabalhado para reduzir os indicadores de violência. A pasta informou ainda que a criação de um grupo – que integra as inteligências do governo federal, as polícias Rodoviária Federal, Militar e Civil, além de órgão penitenciários – “vem ajudando na elucidação de crimes, como os latrocínios.”

Em 2017, a tendência continua sendo de alta nos latrocínios. Conforme o Instituto de Segurança Pública, que faz a compilação oficial dos índices da violência do Estado, foram 176 registros de janeiro a agosto. No mesmo período do ano passado, foram 143 casos. O aumento já é de 23%.

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