"Eu faria novamente", diz o coronel do massacre

Dez anos depois do massacre dos 111 presos no Pavilhão 9 da Casa de Detenção, o homem que chefiou a Tropa de Choque da Polícia Militar no dia 2 de outubro de 1992 continua afirmando que não se arrepende do que fez e diz ter a consciência tranqüila. A morte dos 111 detentos foi motivo de orgulho? Repete que não. Mas afirma que também não é motivo de aborrecimento. "Foi um trabalho como tantos outros que realizei em 33 anos e meio na corporação. Se tivesse de chefiar a tropa em situação idêntica, eu o faria novamente." O coronel Ubiratan Guimarães, de 59 anos, três filhos, na reserva da corporação, é consultor de segurança. Afirmou ter assumido a responsabilidade da invasão porque estava no comando. "Jamais me escondi." Ele e outros 84 policiais foram indiciados, acusados de assassinato e lesões corporais graves. As acusações de espancamento contra um grupo de soldados estão prescritas. Quatro dos PMs acusados morreram. Outros oito indiciados por lesões corporais fizeram acordo com a Justiça para que o processo fosse suspenso. Um único réu foi absolvido: José Roberto Saldanha, por não ter efetuado nenhum tiro no pavilhão. O ex-soldado Cirineu Carlos Letang teve a prisão decretada. Cumpre pena de 50 anos, acusado de matar travestis. Condenado a 632 anos de prisão, pelo 1.º Tribunal do Júri, Guimarães reclama e diz ser hoje o maior condenado no Brasil. "Recebi pena maior que a do bandido Escadinha, um dos mais perigosos do País. Posso garantir que entre os 111 mortos não havia inocentes." Guimarães afirma que não houve excessos por parte da tropa. Disse que alguns detentos queriam o confronto. "Um preso declarou no Tribunal do Júri que tinham preparado uma emboscada para a Tropa de Choque." Estado - Emboscada com estiletes e pedaços de pau? Ubiratan Guimarães - Alguns estavam armados. Foram apreendidas 14 armas de fogo. Estado - Era necessário invadir ? Guimarães - Foi preciso para proteger os presos. Fui o primeiro a cruzar a barricada. Estavam comigo o Mascarenhas e o Salgado, que eram capitães. (Wanderley Mascarenhas é hoje tenente-coronel e Arivaldo Sérgio Salgado é major). Estado - Proteger com 111 mortos? Guimarães - Eram 2.100 presos. Morreram 102. Quem se rendeu, ficou vivo. Os que enfrentaram, morreram. Quando entramos, no térreo do Pavilhão, encontramos oito presos mortos pelos companheiros. No primeiro andar tinha um preso pendurado, sangrando, de ponta cabeça. Ali começou o confronto. Se não houvesse a intervenção, muita gente morreria e cobrariam da gente. Estado - Quem deu a ordem para invadir? Guimarães - Eu determinei a invasão. Mas com ordem do secretário da Segurança (o então promotor de Justiça Pedro Franco de Campos). Com o incêndio e os mortos no pátio, foi preciso agir. Dois juízes estavam lá e autorizaram. Não foi decisão unilateral. Estado - Mas autorizaram a matar? Guimarães - Não. E eu também não dei ordem para matar ninguém. Mandei entrar para proteger os bombeiros, que iriam apagar o fogo na barricada e depois colocar os presos rebelados no pátio para revista. Os policiais atiraram para se defender. Estava escuro. Os presos davam pauladas, estiletadas e tiro nos policiais. Estado - O senhor participou do confronto? Guimarães - Quando subi para o primeiro andar, houve uma explosão, fui atingido no rosto e cai. Fui socorrido. Não voltei para o presídio. Os peritos encontraram uma alça de botijão de gás e um tubo de tevê. Não souberam dizer o que explodiu e me atingiu. Estado - O senhor teria evitado as mortes? Guimarães - Eu e meus comandados agimos no estrito cumprimento do nosso dever. Se foi preciso atirar, foi porque os policiais precisaram defender-se. Estado - O senhor acredita que haverá outro julgamento? Guimarães - Fui condenado, por co-autoria, a 632 anos, por 102 mortos. No julgamento excluíram os 9 mortos pelos próprios detentos. Meu recurso é pela anulação. Um dos jurados confundiu-se na hora de votar as teses da acusação e da defesa e me condenou sem querer. (Se Guimarães conseguir o novo julgamento, ele deverá ocorrer em dois anos). Estado - E os outros acusados, quando serão julgados? Guimarães - Somos 85 réus. Fui julgado e condenado por causa da pressão externa dos organismos internacionais. Quanto aos outros, sei que a Justiça analisa o recurso dos advogados contra a decisão de mandá-los a júri. Estado - E o número 111 na candidatura a deputado. Foi uma afronta? Guimarães - Foi coincidência. Eu era do PSD e meu número terminou com 111. Agora (é candidato novamente a deputado estadual) o número também é 111, mas o final é 190, uma associação que fiz com o Centro de Operações da PM. Leia no Diário do Passado como foi o massacre

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