Eu, me, mim, comigo

Você abre o portão do prédio no momento em que o elevador chega ao térreo, diante do vizinho. Vocês estão a cinco metros um do outro e, pelo jeito que ele não te olha, já se pode prever o desenrolar dos acontecimentos. Você entra e fecha o portão, ficando por três segundos de costas para o condômino. É o momento pelo qual ele esperava. Quando você vira e vai dar o primeiro passo em direção ao hall, cadê o vizinho? Já deve estar em algum lugar entre o primeiro e o segundo andar, a ligeira culpa se evanescendo, enquanto goza o botim de seu furto: dois metros quadrados inteirinhos só pra ele. Você e o vizinho mal se conhecem. Talvez não tenham nada em comum. Quem sabe é ele, inclusive, quem grita pela janela "chuuupa, Porco!", toda vez que você berra "vai Parrrrmera!!", durante os jogos. Mas compartilham o mesmo CEP, uma vista semelhante da cidade, calhou de terem nascido no mesmo século e, pombas!, não basta saberem que ambos têm apenas duas mãos e o sentimento do mundo, como disse o poeta, para que ele espere os sete segundos que os separam? Ele sabe que está errado. Tanto é que, para o bom funcionamento dessa indelicadeza, é imprescindível que não haja contato visual entre as partes. Talvez nos Estados Unidos, onde os conflitos são mais explícitos, as pessoas assumam-se como "elevator stealers" - eles por lá têm termos para tudo - e deve até haver algum republicano que afirme que esperar vizinhos cruzarem o hall desacelera a economia, mas por aqui, embora não seja delito reconhecido por nosso código penal nem conste como infração nas normas do condomínio, não é o tipo da prática que assumiríamos, caso uma mocinha de prancheta nos parasse na Paulista fazendo uma enquete. O leitor pode argumentar que isso é coisa pequena num momento tão tenebroso da história da humanidade. (E que momento não é?). Para que gastar papel e tinta com tais miudezas se há escolas sendo bombardeadas do outro lado do Atlântico e, do lado de cá, as coisas também não vão muito bem? Não sabe o leitor que todas as mazelas têm a mesma origem? Que nascem pequenininhas, depois crescem, como os piolhos, os ditadores e as árvores de Natal feitas de andaime? Quando o vizinho abre a porta do elevador para furtá-lo - ou, ao menos, furtar-se de nossa companhia -, abre uma caixa de Pandora de fórmica, espelho e carpete, deixando escapar lêndeas de mesquinharia. Se Dante escrevesse hoje sua Divina Comédia, reservaria uma ala do inferno só para vizinhos que fogem com o elevador. Não sei se ficariam no primeiro andar, junto aos avaros, ou no terceiro, com os hipócritas e ladrões, mas que arderiam eternamente nas chamas, arderiam. Afinal, não são eles que bombardeiam escolas, mas sem dúvida preparam o terreno.

Antonio Prata, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

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