''Eu prefiro morar aqui'', diz S.

Em avaliação, garoto de 8 anos revela desejo de não voltar aos EUA

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2009 | 00h00

O menino S.R.G, de 8 anos, cuja guarda é disputada na Justiça pelo pai, o americano David Goldman, e pelo padrasto, João Paulo Lins e Silva, disse que quer ficar no Brasil, durante uma avaliação feita por três peritas e uma assistente da União. "Eu prefiro morar aqui. Porque se eu for para lá eu vou começar a endoidecer. Eu quero ficar aqui com a minha irmã, com meu pai, com a minha avó, com meu avô, com meus outros avós", disse na avaliação feita no dia 3 de março, no Rio.O conteúdo da conversa foi transcrito a pedido da psicóloga Vera Lemgruber, que acompanhou o encontro indicada por Lins e Silva. A transcrição, de 17 páginas, foi registrada no 13º Ofício de Notas.O advogado de Lins e Silva, Sérgio Tostes, acha que o depoimento do menino foi fundamental. "Ele não deixou margem de dúvida de que o interesse dele é ficar no Brasil, onde está totalmente acostumado e familiarizado. Ele dizer que quer ficar no Brasil tem um peso muito grande", acredita. O advogado de Goldman no Brasil, Ricardo Zamariola, se recusou a comentar o depoimento. "Para preservar a criança", disse ontem.As peritas já entregaram o laudo ao juiz da 16ª Vara Federal, que também vai analisar as avaliações psicológicas de David Goldman, Lins e Silva e de Silvana Bianchi, avó materna. S.R.G. viveu em New Jersey, nos EUA, com o pai e a mãe, Bruna Bianchi, até 2004. De acordo com depoimentos da família dela, os dois não tinham um casamento feliz. Há quatro anos, quando veio de férias para o Brasil, Bruna acabou ficando e conseguiu na Justiça brasileira a guarda do filho. Goldman pediu o cumprimento da Convenção de Haia, que determina que a guarda seja decidida no país onde a criança residia. Mas teve o pedido negado no Brasil.DIPLOMACIAEm agosto do ano passado, já casada com o advogado Lins e Silva, Bruna deu à luz uma menina, mas morreu no parto. Uma semana depois, Lins e Silva conseguiu a guarda de S.R.G.. O caso virou assunto diplomático entre Brasil e EUA e foi discutido até no encontro entre os presidentes Lula e Obama. A discussão está na 16ª Vara Federal. No encontro com as peritas, o menino só chamou o pai biológico de David. Disse que acha engraçado ter dois pais e que o fato de estar sendo disputado faz com que se sinta amado. Mas não está gostando da situação."Não ?tô? gostando porque eu quero ficar aqui. Mas... Não tem problema ele (David) vir me visitar aqui. Ele poderia me visitar a qualquer hora porque o meu pai João acha que não tem nenhum problema." Uma das peritas perguntou se ele considera David Goldman como pai. "Às vezes sim, às vezes não.... Depende", respondeu. As duas partes envolvidas ensaiaram um acordo, intermediado pela Secretaria de Direitos Humanos, que colocou a Advocacia-Geral da União no caso, pedindo respeito à Convenção de Haia. Mas as conversas não foram adiante. "O advogado do americano disse que não abre mão da ida do menino para os EUA. Ele não considera que o menino está aqui há quatro anos, que tem uma irmã. Diante disso não há possibilidade de acordo", argumentou Tostes. TRECHOS DO DEPOIMENTO"O juiz que manda. Mas eu prefiro morar aqui""No começo ele ficou meio triste" (sobre a reação de David Goldman quando Bruna Bianchi anunciou que não voltaria para os Estados Unidos)"Mas depois só eu ligava pra ele. Depois ele visitava pouco, mas ele só visitou uma vez porque ele quis. A gente nunca impediu ele de vir. Só quando a minha mãe morreu, dez dias depois, porque não era a hora certa""Ele não me perguntou... A gente não conversou sobre isso" (respondendo à pergunta se disse a David Goldman que não queria ir morar com ele nos EUA)"A gente falava pelo telefone. Sempre quando eu queria (falar com David Goldman), eu falava com o meu pai e a minha mãe daqui: eu quero falar com o David. Aí eles ligavam""Foi muito bom" (sobre o último encontro com o pai biológico, no Rio) "A gente foi pra piscina, jogou basquete, jogou formiga na teia de aranha""Eles (o pai e a mãe) brigavam muito (nos Estados Unidos). Quando eu estava comendo, assistindo televisão, eles estavam gritando um com outro. O David fez assim e quebrou um armário""Tenho certeza que o João não vai casar com mais ninguém. Ele já falou para mim""Tanto faz" (se David Goldman casar de novo) "O meu pai João gostava mais da minha mãe. E o David não gostava. Eles brigavam todos os dias" "A gente tinha um barco que a gente pescava. Mas às vezes eu não queria ir pro barco, mas ele... ?Ou você vai pro barco ou a gente não faz nada ou você fica sozinho em casa com a babá?" (sobre as lembranças da vida em New Jersey com o pai)"O David era modelo.... De tirar foto, não de desfilar. Tiravam foto dele. Depois ele saía para pescar, quando ele acabava""O David quer que eu more lá e a minha família daqui tá querendo que eu more aqui. E aí tá tendo um divórcio""Eu ia começar a ficar maluco porque... Aqui eu tenho os meus amigos, minha escola, minha irmã" (respondendo à pergunta de como reagiria se o juiz decidir que ele tem de ir para os Estados Unidos) "Gosto mais de falar português. Inglês é um pouquinho difícil"

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