EUA se queixam de ''ausência'' do Brasil no combate às drogas

Americanos cobram mais colaboração nas ações para acabar com as gangues e o tráfico [br]na América Central

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE/ WASHINGTON

Os Estados Unidos emitiram ontem duas discretas queixas sobre a ausência do Brasil nos esforços de combate ao narcotráfico e à violência na América Central e na África Ocidental. Em ambas as iniciativas, Washington está presente. O Brasil, ao contrário, não aderiu ao chamado Grupo de Amigos da América Central, por meio do qual os países europeus, os Estados Unidos e o Canadá tentam articular uma estratégia conjunta para acabar com as gangues e o tráfico de drogas.

O Brasil igualmente se mostra omisso na iniciativa dos Estados Unidos de cooperar nessas áreas com países da África Ocidental - o destino primário da cocaína transportada pelo território brasileiro.

"A maioria da droga que passa pelo Brasil vai à África Ocidental e, eventualmente, à Europa. Isso pode mudar no futuro. O narcotráfico é bom comerciante e sempre está pronto a buscar uma oportunidade", afirmou o embaixador William Brownfield, secretário-assistente de Estado para o Escritório Internacional de Narcóticos dos Estados Unidos, referindo-se à possibilidade de a droga alcançar o mercado norte-americano. "Para evitar isso, será preciso uma boa colaboração entre os governos do Brasil, dos Estados Unidos e de outros países", completou o embaixador.

Entusiasmo. Segundo o embaixador Brownfield, sem a participação "direta, entusiasmada e positiva" do governo brasileiro, os Estados Unidos e a África Ocidental não terão sucesso em sua iniciativa conjunta na área da segurança cidadã, que envolverá especialmente o combate ao narcotráfico.

O acordo está fase inicial de negociação. O Brasil, por enquanto, não participa dessas conversas. No caso da América Central, a omissão brasileira também é percebida com reservas pelo governo americano.

Em setembro do ano passado, em paralelo à sessão de abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, houve uma reunião dos países amigos da América Central, com a adesão de novos membros. O governo brasileiro, apesar do seu ativismo em questões latino-americanas, preferiu não participar.

"O Brasil tem excelente relação com países centro-americanos e com os Estados Unidos. Se quiser apostar nessa iniciativa, será bem-vindo", afirmou ontem Arturo Valenzuela, secretário-assistente de Estado para o Hemisfério Ocidental.

Guatemala. Amanhã, na Cidade da Guatemala, será realizada a reunião de cúpula do Sistema de Integração da América Central (Sica) sobre segurança.

A região se vê dominada por gangues de criminosos e pelo narcotráfico, que encontrou na rota terrestre o melhor meio de alcançar o mercado americano. Esse será o primeiro passo para elaboração de uma estratégia conjunta de combate às gangues, ao tráfico de drogas e de armas, que envolve cerca de US$ 900 milhões em doações já realizadas pelos Estados Unidos, por países europeus e pelo Banco Mundial.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, estará presente e seguirá, depois, para a discussão de iniciativa similar do Mercado Comum do Caribe (Caricom), na Jamaica.

Segundo Valenzuela, os Estados Unidos iniciaram conversas com o Brasil sobre um possível acordo trilateral com a Bolívia sobre o combate ao narcotráfico.

O país vizinho expulsou os agentes da agência antidrogas americana (DEA, na sigla em inglês) há três anos, com total apoio do governo brasileiro. Desde então, a produção de coca no país aumentou, e seu tradicional destino também mudou.

Queda. Valenzuela e Brownfield insistiram no fato de o consumo nos Estados Unidos ter caído em 50% nos últimos dez anos, em paralelo ao aumento da demanda pela droga no Brasil e na Argentina.

"Temos aí uma frente bem diferente para a cooperação", completou o secretário Arturo Valenzuela.

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