CLAUDIA TREVISAN/ESTADÃO
CLAUDIA TREVISAN/ESTADÃO

EUA têm ao menos 125 padres casados

Ex-anglicanos, eles se converteram e não precisaram largar família; livro recém-lançado pela Oxford University Press mostra rotina

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2015 | 17h03

WASHINGTON - Todos os domingos, o padre Paul Sullins celebra a missa das 9 horas na igreja São Marcos, nos arredores de Washington. A poucos metros do altar, os músicos que participam da cerimônia são comandados por sua mulher, Mary Patricia. Ambos levam na mão esquerda a aliança que simboliza o casamento que os uniu há quase 30 anos, período no qual tiveram três filhos e dois netos.

Apesar de não ter feito o voto de celibato, Sullins desempenha as mesmas atribuições que qualquer um dos cerca de 40 mil padres católicos dos Estados Unidos. Além dele, existem ao menos outros 124 religiosos casados no grupo, quase todos ex-anglicanos que se converteram ao Catolicismo graças a uma decisão adotada pelo papa João Paulo II em 1980. 

Com a mudança, eles puderam entrar na Igreja sem precisar abandonar suas famílias. Até então, os que faziam esse caminho tinham de se separar de suas mulheres. Sullins começou seus estudos no seminário episcopal em 1980 e se tornou pastor em 1984, um ano antes de se casar com Mary Patricia. 

Na década seguinte, ele começou a duvidar de sua fé anglicana e a se sentir desconfortável em uma igreja de posições cada vez mais liberais em relação ao aborto e ao casamento gay. “Meu problema dizia respeito à autoridade. Quem deveria decidir essas questões?”, disse ao Estado no domingo, depois de rezar a missa na São Marcos. 

Apesar de parecer um rebelde por sua conversão e condição minoritária entre os católicos, Sullins está longe de ser um liberal: ele é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e vê o divórcio e o aborto como pecado. 

Outro fator determinante para a conversão foi sua identificação com a visão católica de que Cristo está presente na Eucaristia. “Quando percebi isso, não tinha escolha a não ser me tornar católico.”

Apesar de ser casado, Sullins é cauteloso em relação ao fim do celibato e acredita que a Igreja Católica ainda tem de digerir muitas das transformações implementadas nos últimos 50 anos - em sua avaliação, elas superaram todas as realizadas no período histórico precedente. “Como sou casado, não creio que tenha isenção para dizer se a Igreja deveria mudar a questão do celibato. De qualquer maneira, não escolheria fazer isso neste momento”, disse.

Livro. Sullins dedicou grande parte dos últimos sete anos a entrevistar 70 padres casados convertidos da Igreja Episcopal (como a Igreja Anglicana é chamada nos EUA) ao Catolicismo. Também conversou com muitas de suas mulheres e fiéis que pertencem a paróquias comandadas por padres casados. 

O resultado é o livro Keeping the Vow: the Untold Story of Married Catholic Priests (Mantendo o Voto: a História Não Contada de Padres Católicos, em tradução livre). A obra acaba de ser lançada pela Oxford University Press e traz na capa um homem com colarinho clerical, uma Bíblia nas mãos e aliança no dedo anular esquerdo. Formado em Filosofia e Estudos Religiosos e com doutorado em Sociologia, Sullins é professor da Universidade Católica em Washington desde 1998. Foi lá que ele garantiu o sustento de sua família nos quatro anos em que se preparou para sua ordenação como padre, em 2002.

Conclusão. Uma das mais importantes conclusões do livro é a de que a justificativa do celibato pela necessidade de dedicação exclusiva à Igreja não se sustenta no mundo real. “Os padres casados tendem a ser mais dedicados ao cuidado da paróquia. E a principal razão para isso são suas mulheres.” Elas costumam lembrá-los de rezar o breviário e os estimulam a atender demandas dos fiéis. 

Mas, apesar de desempenharem um papel relevante no trabalho de seus maridos, elas são as que mais sofrem no processo de conversão, ressaltou Sullins. Segundo o padre, a mudança de igreja é resultado de uma reflexão interior dos religiosos, que provoca nas mulheres um sentimento de que estão à margem e isoladas. “Na Igreja Episcopal há muitas mulheres de pastores, que formam grupos e desempenham atividades. Mas na Igreja Católica não há mulheres de padres e elas têm dificuldade em definir sua identidade.”

‘Eles entendem os desafios do casamento’

Quando Paul Sullins se tornou padre na Igreja que frequenta há 20 anos, Marylove Moy reagiu com desconfiança. Educada em uma família católica tradicional, ela só havia conhecido religiosos celibatários. Mas as homilias “realistas” do ex-anglicano, sua compreensão dos problemas cotidianos enfrentados pelos fiéis e a dedicação de sua mulher, Mary Patricia, acabaram conquistando Marylove.

“Eu recorro ao padre Paul quando preciso de compaixão. O fato de ele ser casado ajuda, porque lhe dá uma compreensão dos desafios do dia a dia apresentados pelos filhos e o casamento”, disse a católica ao Estado. Ainda assim, foram necessários cinco anos para que Marylove superasse a resistência.

Divórcio. Wilbur Turner e sua mulher, Donna Chacko, frequentam a igreja São Marcos há cinco anos e nunca tiveram problema com o fato de Sullins ser casado. “A igreja tem uma visão idealista do matrimônio e a realidade que nós vivemos é diferente”, observou Turner, que se divorciou em 2002, anulou seu casamento religioso em 2005 e se casou com Donna em 2006. 

O que a perturba não é o fato de Sullins ser casado, mas a convicção do religioso de que o divórcio é pecado. “Realmente não entendo isso.”

As entrevistas que Sullins fez para escrever seu livro revelaram ampla aceitação de padres casados pelos fiéis. “A maioria diz ‘eu acho que todos os padres deveriam ser casados’.”

Perguntada se era a favor do fim do celibato, Marylove deu um suspiro profundo, revelador de um debate interior sobre o assunto. “Por que não?”, respondeu, depois de alguns segundos. Turner vê com simpatia o fim do celibato, mas ressalta que é uma decisão que deve ser tomada pelos religiosos. 

Na avaliação de Sullins, a existência de 17 mil diáconos nos EUA, a maioria dos quais casados, familiarizou a comunidade católica do país com clérigos que não professam o celibato. Os diáconos podem desempenhar muitas das atribuições dos padres, como fazer batismos e casamentos, mas são proibidos de ouvir confissões, celebrar a Eucaristia e administrar a extrema-unção. 

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