Ex-aluno atira na própria cabeça após ameaçar professora

João fez jovem, por quem seria apaixonado, refém por alguns instantes, mas não a feriu; ele está internado

Eduardo Kattah e Ricardo Valota, O Estado de S. Paulo e estadao.com.br

21 Agosto 2008 | 04h25

Alunos e professores da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) viveram momentos de pânico na noite de quarta-feira, 20, quando um ex-aluno invadiu armado uma das salas de aula do campus da Pampulha. Por volta de 21 horas, João Luciano Ferreira Júnior, de 39 anos, que é paraplégico e usa cadeira de rodas, chegou à faculdade e entrou no elevador, se dirigindo ao quarto andar.   Com revólver calibre 32 em punho, João Luciano entrou em uma das salas onde alguns professores do Centro de Extensão (Cenex) da unidade estavam reunidos. Ele exigiu que todos deixassem o local, com exceção da professora de alemão e aluna de mestrado Polyana Costa Arantes, de 25 anos. Em seguida, em meio a um rápido e tenso diálogo com a jovem, efetuou pelo menos dois disparos, sem acertar Polyana. Depois, deu um tiro na própria cabeça.   João Luciano foi socorrido e levado para o Hospital Municipal Odilon Behrens, onde até esta tarde permanecia internado em estado muito grave, com risco de morte. O barulho dos tiros assustou estudantes que estavam em outras salas. Os alunos deixaram as classes e se concentraram diante do prédio da faculdade sem entender o que havia acontecido.   Testemunhas e ex-colegas de João Luciano o descreveram como uma pessoa cordial e educada, mas que nutria uma obsessão e uma paixão platônica pela professora de alemão. Ela disse à Polícia Militar que vinha sofrendo assédio. Embora nunca tivesse se declarado, João Luciano colheu dados sobre a professora, como número da placa do carro, endereço e telefone da casa. "Inclusive, ligou para casa dela, num único dia, 16 vezes", contou o tenente José Caldeira, do 34.º Batalhão da Polícia Militar.   Polyana relatou à PM também que primeiro João Luciano atirou em direção ao chão e depois no computador. Logo depois, apontou o revólver para ela, mas mudou a direção e atirou na própria cabeça. "Diante da solicitação de que ele não fizesse nada contra ela, ele apontou a arma contra a própria cabeça e efetuou um único disparo", disse o militar. Antes de atirar contra a própria cabeça, João Luciano perguntou a Polyana se ela sabia "o que é desprezo".   De acordo com o hospital, a bala entrou pelo lado direito do crânio e saiu do lado oposto. João Luciano estava em coma e respirava com ajuda de aparelhos. Após o incidente, a jovem ficou em estado de choque e precisou ser medicada.   Caso isolado   O diretor da Faculdade de Letras da UFMG, Jacyntho Lins Brandão, lamentou o fato, mas disse que se trata de um caso isolado. Segundo ele, não há previsão de mudança no sistema de segurança da faculdade. "Foi uma tragédia, uma situação de exceção. Não podemos controlar a entrada e saída de todos que circulam na universidade. Nós não temos essa lógica de controle ostensivo, como a praticada nas empresas".   Conforme o diretor, a universidade, até por seu perfil de instituição produtora de conhecimento, deve manter suas portas sempre abertas para a comunidade. Ele garantiu que a UFMG prestava total assistência a Polyana e a João Luciano.   Policiais civis, militares e federais estiveram na universidade e a arma foi recolhida para ser periciada. Um inquérito será instaurado pela 16.ª Delegacia da capital, mas a professora já foi ouvida.   Texto alterado às 17h27 para acréscimo de informações e correção de título. O ex-aluno ameaçou a professora, mas não atirou contra ela.

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