Ex-capitão teve nariz quebrado por ator

Stovani usou ?pedagogia da humilhação? para treinar Wagner Moura, o capitão Nascimento do filme ?Tropa de Elite?

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

Paulo Stovani, de 45 anos, ficou 17 anos na Polícia Militar do Rio. Por quatro anos, foi capitão do Bope, o Batalhão de Operações Especiais. Entre outras coisas, treinava os aspirantes, como faz o Capitão Nascimento (Wagner Moura) no filme Tropa de Elite. Durante 20 dias, Stovani treinou Moura e os outros atores para agirem como homens do Bope no longa de José Padilha. E foi muito duro com eles. Stovani é mestre em tiro, com cursos em Israel e nos Estados Unidos. Foi o primeiro colocado no curso do Bope. Parecia o homem certo no lugar certo. Mas há dez anos, trocou de profissão. Saiu da polícia (continua apenas como instrutor de tiro) e virou professor de Educação Física de crianças. Nunca deixou de pensar em segurança pública. Até o final do ano termina o mestrado em antropologia na Universidade Federal Fluminense. Sua tese é estudar o que faz o homem do Bope ser diferente dos outros policiais. Há um ano assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Gonçalo, no Grande Rio. Acha que é papel das prefeituras evitar que adolescentes entrem para o crime. Stovani gostou de Tropa de Elite, mas com ressalvas. Por que o senhor deixou o Bope? Por vários motivos. Mas o mais importante é porque eu comecei a desacreditar que a polícia iria resolver o problema da segurança pública. Não por falta da capacidade de a polícia agir. Mas segurança pública é muito maior do que ação de polícia. A solução está nos municípios assumirem que têm responsabilidade na violência. É preciso começar a encarar o problema com ações sociais. Ações sociais demoram quanto tempo para apresentar resultados? Demora uma geração. Mas enquanto isso não for construído, o que nós vamos ver são trocas de tiro diárias, policiais morrendo, gente inocente morrendo de bala perdida e os próprios marginais morrendo. É uma dinâmica que tem que ser interrompida. É nisso que eu acredito. O Bope, na vida real, tortura moradores de favelas como o filme mostra? Não. Eu desconheço no Batalhão de Operações Especiais tortura de moradores. Não vou dizer que nunca tenha ocorrido, mas ela não é uma prática. Eu nunca torturei. O Bope chega muito mais próximo do criminoso que está barricado dentro da favela do que as outras unidades. Isso aumenta a beligerância do confronto. Mas não há tortura. Se não há tortura, por que concordou em treinar os atores para essas cenas? Foi uma coisa muito difícil. Eu ponderei com o (José) Padilha (diretor do filme). Mas ele fazia questão. Me disse que o filme é uma ficção. Eu me inspirei em cenas de tortura de dois filmes, Os Gritos do Silêncio (dirigido por Roland Joffé) e Xeque-mate (de Paul McGuigan), com Bruce Willis. No calor de uma ação numa favela, é justificável o policial matar o traficante? Executar sem chance de defesa é crime. Quando as pessoas confrontam o Bope, morrem. Quem pagou para ver, não viu mais. O Bope não vai matar quem não está com arma na mão. Mas hoje os marginais preferem o confronto. A possibilidade de prender foi por água abaixo. A maneira de acabar com essa situação não é aumentando o efetivo policial. Eu estive lá na ponta, eu sei o que me marcou. O que me marcou foi ver adolescentes mortos com arma na mão. Foi ver a miséria de perto. Foi ver a garota rica caída depois de tanto consumir drogas no alto de um morro. O que o senhor fez para levar um soco do Wagner Moura durante o treinamento? A Fátima Toledo, que fez a preparação dos atores, pediu minha ajuda para despertar a agressividade no Wagner. Ele tinha acabado de ter o primeiro filho. Estava zen. Comecei com a pedagogia da humilhação. Depois de muito exercício, mandei ele buscar água. Todas as ordens eram aos berros. Ele trouxe o primeiro copo de água. Mandei ele pegar outro porque dizia que ele tinha cuspido no copo. Ele pegou. Reclamei que a água estava gelada. Ele foi até a geladeira seis vezes. Mandei ele ficar soprando no fundo do copo para esquentar a água. Perguntei se ele estava com sede. Quando ele começou a beber a água, peguei o copo, coloquei a água toda na minha boca, bochechei, cuspi a água de volta no copo e mandei: agora bebe. Ele bebeu. Fiquei perplexo. Tive que engrossar. Mandei ele fazer flexão de braço. Muitas. E fui gritando no ouvido dele: você é um fraco. Quando ele estava exausto, perguntei o que ele mais gostava no mundo? Meu filho. Você mataria pelo seu filho? Mataria. Então vamos ver. Você vai chegar em casa hoje, a porta vai estar arrombada, você vai encontrar um cenário de horror (e começou a descrever a cena). Wagner bufava. Coloquei ele de pé, comecei a empurrá-lo até um canto da sala. Até que eu disse: eu sou o cara que fez tudo aquilo com o seu filho. E aí? Eu estava preparado para ele me dar um golpe de capoeira ou até uma cabeçada. Mas ele me surpreendeu com um soco cruzado e quebrou o meu nariz. O Capitão Nascimento nasceu ali. O senhor mudaria o final do filme? Se fosse mudar alguma coisa ali, teria valorizado o subcomandante daquele grupo, um policial correto e honesto. Era um jeito de mostrar a verdade: os bons policiais são maioria na PM e no Bope.

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