Ex-comandante confirma denúncias contra secretário no Rio

O ex-comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar (São Cristóvão), tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, disse hoje, em depoimento à Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que, em momento algum o secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, fez referência a riscos oferecidos pela polícia no morro no horário de entrada e saídas de estudantes para justificar o pedido de diminuição das operações no morro da Mangueira.O então subcomandante de Costa Filho, major Roberto Alves Lima, ouvido logo depois, também contestou a versão do secretário.Costa Filho repetiu o teor do documento em que diz que Chiquinho pediu uma trégua no policiamento por estar sofrendo ameaças dos traficantes da área, que não estariam "vendendo nada". O secretário teria dito ainda que os criminosos acreditam que ele havia indicado o tenente-coronel para o comando do batalhão.Durante o depoimento, que durou quase duas horas, Costa Filho afirmou que a citação ao horário de entrada e saída de estudantes surgiu apenas em ofício do secretário repassado ao 4º BPM pelo juiz da 1ª Vara da Infância e da Juventude, Siro Darlan, dez dias após a reunião de 14 de fevereiro entre o então comandante e Chiquinho, presenciada pelo major Lima e três presidentes de associações de moradores da Mangueira.A comissão aprovou hoje pedido de convocação do juiz para prestar esclarecimentos sobre o caso.O tenente-coronel e o major Lima garantiram que, durante o período em que estiveram à frente do 4º BPM, não ocorreram incidentes com estudantes da região e nem receberam reclamações de professores ou pais por causa do policiamento. Costa Filho confirmou ainda ter sido exonerado do 4º BPM por pressão política e contou que o desabafo feito ao passar o cargo foi motivado pela mágoa de ter sido apontado, de forma injusta, como inoperante. "Na sexta, sou convocado ao QG e lá dizem que eu vou sair e dão um sorriso para mim. E no sábado, sai meu nome no jornal e diz que saí por inoperância. O nome do meu filho é igual ao meu e na escola vão dizer que o pai dele é incompetente ".Segundo ele, a sua exoneração não teria sido o único caso de interferência política na polícia. Ele entregou à comissão, ofício enviado no ano passado ao gabinete da então governadora Benedita da Silva (PT), no qual o tenente-coronel Miguel Pinheiro pede para ser promovido ao cargo de comandante do Batalhão de Polícia Rodoviária, ocupado, à época, por Costa Filho. A solicitação não foi atendida, mas Pinheiro assumiu o posto no governo de Rosinha Matheus (PSB). "Em um primeiro momento, a política não funcionou. Depois, fui indicado pelo comandante-geral da PM", disse hoje o tenente-coronel Pinheiro.Costa Filho afirmou ter enviado aos seus superiores ofício sobre a reunião com Chiquinho porque não queria ser responsabilizado pela vida do secretário. "Diante da ameaça, se eu não escrevo e acontece alguma coisa com ele, eu seria acusado de omissão". O então secretário de Segurança Pública do RJ, Josias Quintal, pediu para o serviço reservado da PM investigar o caso, mas o inquérito só foi aberto após a exoneração de Costa Filho.Chiquinho coordena projetos sociais na Mangueira. Presente ao depoimento, a deputada estadual Georgette Vidor (PPS), que realiza trabalho semelhante no Complexo da Maré, afirmou não ser possível desenvolver programas nas favelas sem autorização dos traficantes. "Sem isso, o projeto não existe".Na terça-feira, Chiquinho e o representante da associação de moradores da Mangueira, Anderson Monteiro, vão ser ouvidos pela comissão.

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