Ex-delegado diz que crime domina prisões no RJ

Os presídios do Estado do Rio estão dominados por facções criminosas que atuam com a conivência de guardas penitenciários, e, por isso, não há rebeliões graves como as ocorridas em São Paulo, onde ainda existe enfrentamento, apesar do avanço de grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), diz o delegado aposentado Hélio Luz, de 55 anos, que chefiou a Polícia Civil fluminense no período 1995-1997. Hoje deputado estadual pelo PT, Luz defende a tese de que o único crime organizado existente no País é o jogo do bicho. Segundo ele, facções como o Comando Vermelho (CV) são "figurações que só existem porque pagam aos guardas penitenciários", assim como "atuam nas favelas porque dão dinheiro aos PMs"."Esse negócio de que vagabundo tomou conta de presídio é mentirinha. Só assusta quem não conhece. As facções atuam na linha de frente, mas por trás sempre tem um guarda penitenciário levando grana, herança do Estado corrupto", disse Luz. "No Rio, está tudo dominado. Não há crise porque tem acerto. O Estado concorda com o controle interno. Quem manda são eles. Lá em São Paulo, ainda existe enfrentamento, mas esse negócio de PCC é figuração. O problema é interno. O Estado está perdendo o controle."O deputado afirma que o controle dos agentes começa pela cantina do presídio e vai da pasta de dente ao sabonete, passando pela visita íntima, até chegar à maconha e à cocaína. "Jogar bombinha para melhorar as condições internas, quem vai acreditar nisso? Se eles realmente controlam sozinhos, por que não fogem todos??, disse Luz, que dirigiu a Divisão Anti-Sequestro (DAS) antes de assumir a chefia de polícia. Sua gestão marcou o início da redução dos casos de sequestro no Estado, que chegaram a 108 em 1995, caindo para 58 em 1997, ano em que deixou o cargo, em solidariedade a uma greve de policiais por aumento de salário.Procurado pelo Estado, o secretário estadual de Direitos Humanos e Sistema Penitenciário do Rio, João Luiz Pinaud, reagiu irritado às declarações de Luz. Ele afirmou que vai convocar o ex-chefe de Polícia para apresentar formalmente, com provas, informações de que os presídios do Rio estariam dominados por facções criminosas. Pinaud disse que a acusação é leviana. "Ele (Luz) não vai questionar o meu trabalho dessa forma. É uma ofensa", reagiu o secretário. Segundo ele, foi formada uma comissão, há mais de um ano, para apurar a suposta atuação de facções nos presídios. Em novembro do ano passado, o secretário foi a Bangu 3 para negociar o fim de uma rebelião em que os presos portavam fuzis, pistolas e granadas. Na ocasião, ao final do protesto, ele declarou que os detentos "agiram no justo direito de reivindicar", sem explicar de que forma as armas haviam entrado no presídio.Comando VermelhoAs origens do Comando Vermelho, facção que dominou o crime no Rio na década de 80 e hoje disputa poder com outros grupos como o Terceiro Comando, estão ligadas à história do presídio da Ilha Grande, segundo especialistas em criminalidade como o advogado Augusto Thompson, que foi diretor do Desipe por duas vezes, nos anos 60 e 70. De acordo com a tese, criminosos teriam se envolvido com presos políticos levados para a Ilha Grande e adaptado as táticas da guerrilha urbana para o crime comum. A oportunidade para a formação de grupos organizados e a corrupção viria da dificuldade de comunicação com o mundo.A lenda conta que, depois de terem ocorrido mortes no presídio em 1975, os detentos se reuniram e decidiram fazer um coletivo, dirigido pelos que tinham condenações mais graves, com regras sobre quando e quem mereceria a pena de morte. Tudo baseado na organização que existia, entre os presos políticos, para a divisão de biscoitos ou livros. Os que ganhavam a liberdade, por exemplo, eram obrigados a dar parte da renda dos roubos ao coletivo.

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