Ex-interno da Febem defende tese na terça-feira

Roberto da Silva, de 43 anos, ex-interno da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), ex-morador de rua e ex-presidiário da Casa de Detenção apresenta, nesta terça-feira, uma seqüência de sua tese de doutorado sobre o sistema prisional no Estado.Silva é pedagogo e professor de educação pela Universidade de São Paulo (USP). Sua experiência em instituições do Estado serviu de base para a tese de mestrado que resultou no livro "Os Filhos do Governo", lançado em 1998. A eficácia sócio-pedagógica da pena de privação da liberdade é o tema da tese de doutorado de Silva, que, após quatro anos de estudo, aponta falhas no tratamento de internos da Febem e de detentos do sistema carcerário.A pesquisa só completa o que Silva conhece muito bem. Abandonado pela mãe aos 3 anos, ele e os três irmãos foram deixados na Febem, onde viveu até os 17 anos. Da instituição, as lembranças remetem à separação dos irmãos e ao tratamento inadequado oferecido aos internos.Do internato para as ruas, Silva caiu na criminalidade e foi preso por roubo e estelionato. "Quem mora na rua tem de sobreviver de alguma forma." Silva cumpriu 7 anos de prisão - tempo que aproveitou para estudar o Código Penal, que utilizou para defender presos e virar alvo da Justiça, que o apontava como líder de uma organização criminal. Livre, formou-se em pedagogia pela Universidade Federal de Mato Grosso.TesesEm sua primeira tese, ele abordou a influência da Febem na vida dos órfãos e abandonados que cresceram nesses locais. Dos 370 pesquisados, seus companheiros de internato, metade havia sido presa ou continuava nas cadeias, outros tinham morrido e alguns permaneciam em serviços públicos. "Consegui reunir 60 grupos de irmãos e até reencontrei minha irmã e meus dois irmãos." Quanto ao destino das pessoas, Silva comenta: "A Febem pode assumir o papel de pai e mãe ou de padrasto e madrasta; independente do papel, o tratamento definiu o destino da maioria".Silva critica, em seu livro, a falta de atividades para motivar os internos, alfabetizá-los e até mesmo profissionalizá-los. "Não adianta manter uma pessoa confinada por tanto tempo, isso só traz distorções em seu caráter e forma de vida."Em sua segunda tese, Silva avaliou o comportamento de 240 pessoas, divididas em grupos de 60 pessoas, de quatro unidades de confinamento diferentes: a Febem, um presídio feminino, um masculino e a cadeia de Bragança Paulista - considerada modelo no tratamento de presos. Em sua conclusão, Silva revela: "Nós não vamos ter uma sociedade sem prisões. Isso é utopia".Para ele, a falta de estrutura nas cadeias e a insegurança dentro do sistema deixam o detento à mercê da criminalidade. O preso passa anos sob a influência de uma cultura criminal. "Quando sai, não tem outra opção a não ser continuar no crime." Para Silva, o Estado tem de adotar modelos de recuperação como o da Cadeia de Bragança, que é administrada pela Associação de Proteção ao Preso Condenado (Apac). O índice de reincidência ao crime nesta unidade é de 10%, enquanto no restante do país, assegura Silva, a média é de 70%.A pesquisa de Silva está sendo analisada por entidades ligadas à área. O professor preside a ONG História do Presente, Organização Paulista para Ações de Cidadania e integra os conselhos do Ilanud e o de Política Criminal e Penitenciária de São Paulo. "Ninguém nasce criminoso, mas as influências e tratamentos dados ao ser humano podem conduzi-lo à criminalidade", concluiu o especialista.

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