Ex-ministro ameaça pôr PR a favor de CPI se Dilma não o inocentar

Planalto tenta acalmar Nascimento, pois faltam 3 assinaturas para oposição garantir investigação e seu partido tem 6 senadores

Christiane Samarco / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2011 | 00h00

Inconformado com o despejo do Ministério dos Transportes e com o carimbo de corrupto que a "faxina ética" do Palácio do Planalto imprimiu no PR, o ex-ministro e presidente nacional do partido, senador Alfredo Nascimento (AM), ameaça o governo com a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito para apurar corrupção.

"O governo está com medo dos senadores e de mim", disse Nascimento a correligionários, ao relatar conversa que tivera com a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, na terça-feira.

A tensão é grande porque faltam apenas três assinaturas para que a CPI seja criada no Senado. Como a bancada do PR tem seis senadores, a avaliação geral é que o governo não conseguirá evitar a investigação se o partido apoiar o pedido das oposições.

Articulação. A ministra Ideli Salvatti entrou em cena para aplacar a ira de Nascimento, mas o que ele quer mesmo é ser recebido e inocentado pela presidente Dilma Rousseff. Com o intuito de poupar a presidente Dilma, o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, chamou o senador ao Palácio do Planalto na quarta-feira.

Nascimento havia dito aos colegas que Ideli elogiara muito o PR e insistira que o partido é importante para a estabilidade da base do governo, em todas as votações, e que tentaria ver se Dilma o receberia.

A cúpula do PR no Senado quer que o governo conserte o estrago político que fez na imagem do partido e na biografia de alguns de seus dirigentes. Estão especialmente nessa linha Nascimento e o senador Blairo Maggi (PR-MT), que viu o amigo e colaborador Luiz Antônio Pagot ser demitido do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em meio a denúncias de corrupção.

Nos bastidores, todos se queixam de que o PR está "em péssimas condições políticas" para enfrentar as eleições do ano que vem porque virou "sinônimo de corrupção". É a preocupação com as urnas que estimula o presidente do partido a pressionar o governo para que conclua logo algumas investigações nos Transportes e aponte os culpados.

Nome aos bois. "Só tem dois jeitos: ou o governo conclui o trabalho policial e dá nome aos bois, ou a gente ajuda a fazer a CPI", resume um dirigente da legenda. Segundo esse parlamentar, foi nesse tom que Nascimento abordou o assunto com Ideli, insistindo que o principal era o governo "dar uma declaração inocentando o partido".

Na conversa, Nascimento foi além, dizendo que essa declaração teria de ser "acima" dela, ministra, porque o governo teria ferido "de morte" o partido.

A avaliação geral no PR é que o Planalto agiu "de forma errada" com a legenda. Tanto que não "conseguiu" usar o mesmo rigor no caso dos ministros do PP e do PMDB envolvidos em denúncias de corrupção.

Para os parlamentares do PR, a prova concreta de que o governo cometeu um erro é o que ocorreu nos Ministérios das Cidades e do Turismo. Os ministros Mário Negromonte (PP) e Pedro Novais (PMDB) foram poupados da degola, diferentemente do que ocorreu nos Transportes.

Reclamação

ALFREDO NASCIMENTO

SENADOR E PRESIDENTE DO PR (AM)

"Não é aceitável que sejamos tratados como aliados de pouca categoria, fisiológicos e oportunistas"

(AO DECLARAR "INDEPENDÊNCIA" DO PR EM RELAÇÃO AO GOVERNO, NA TRIBUNA DO SENADO, 16 DE AGOSTO)

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