Ex-ministro falava a língua do mercado, dizem economistas

Especialistas afirmam que a visão de Palocci sobre a economia do País era semelhante à[br]do setor privado

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2011 | 00h00

A saída do ministro Antonio Palocci do governo, após pedir demissão da Casa Civil, gera efeitos contraditórios do ponto de vista econômico, de acordo com economistas ouvidos pelo Estado. De um lado, o pedido de demissão de Palocci tira do governo o peso de denúncias de corrupção, o que se traduz em mais credibilidade para a gestão Dilma Rousseff. De outro, o Planalto perde um interlocutor que dialogava em igualdade de condições com o setor privado.

"O diagnóstico de Palocci em relação aos problemas econômicos era próximo ao da maioria dos economistas de mercado", diz o consultor econômico Raul Velloso. Para ele, Palocci garantia ao setor privado um interlocutor no governo sensível às suas reivindicações. "A opção do governo foi se livrar de um elemento que causava ruído, discussões e ameaças neste momento", afirma.

O economista Miguel Daoud, da consultoria Global Financial Advisor, diz que o saldo imediato da saída do ministro Palocci é positivo. "Sua permanência estava criando uma situação constrangedora. Iria sempre pairar uma dúvida", afirma. No entanto, para o economista, é inegável que o ex-ministro tinha um bom trânsito entre empresas e no setor financeiro - um reflexo de sua atuação no Ministério da Fazenda, durante o governo Lula.

Na Casa Civil, como principal articulador político das demandas do governo Dilma, Palocci também tinha a função de providenciar a aprovação de matérias econômicas. "Nos últimos tempos, o governo não tem pressionado por reformas. Mas, se quisesse fazer isso, Palocci teria a condição de fazer o meio de campo", diz Daoud. "A substituta do ministro (a senadora paranaense Gleisi Hoffmann) não tem o mesmo tipo de experiência."

Peso relativo. Para o economista Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o efeito prático da demissão de Palocci para a economia é marginal, apesar da experiência prévia do ex-ministro na área. "É um cargo de articulação política. Não é o efeito que a saída de um ministro da Fazenda ou do presidente do BC teria", explica.

A substituição de Antonio Palocci, porém, terá o efeito de acalmar um desgaste político maior neste início de administração Dilma Rousseff - deste ponto de vista, acredita Lozardo, a repercussão será positiva. "Acho que acaba sendo um recado da presidente Dilma de que ela é a autoridade máxima e está no controle", afirma o economista. "O que poderia afetar mais a economia é um desgaste político da presidente e do governo."

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