Ex-padre é preso no RS suspeito de abusos por mais de 50 anos

João Marcos Porto Maciel, ou dom Marcos de Santa Helena, como é conhecido, fundou a Igreja Veterodoxa após ser excomungado da Igreja Católica e expulso da Anglicana

Lucas Azevedo - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2014 | 20h24

PORTO ALEGRE - Um ex-padre católico que ultimamente pregava como arcebispo da Igreja Veterodoxa foi preso na manhã desta terça-feira, 9, no interior do Rio Grande do Sul, suspeito de estupro de vulnerável (menor de 14 anos). João Marcos Porto Maciel, ou dom Marcos de Santa Helena, como é conhecido, foi surpreendido durante o cumprimento de mandado de prisão temporária e de busca e apreensão em Caçapava do Sul, onde funciona uma congregação fundada por ele, na qual são recebidos menores de idade em vulnerabilidade social.

Seis vítimas ouvidas pela polícia reconhecem o ex-padre como abusador. Porém, dos seis crimes, apenas dois não prescreveram, pois os demais teriam acontecido há mais de 50 anos. "Hoje (terça-feira) já  recebemos ligações com novas informações e estamos agendando novas oitivas. Seriam relatos que reforçam a tese de que o fato aconteceu", afirmou o delegado Fabrício de Santis Conceição.

O depoimento de dom Marcos de Santa Helena deve ocorrer ainda esta semana. Seu advogado informou que não pode comparecer nesta terça à delegacia por causa de outros compromissos profissionais.

Durante a ação desta terça, dois monges que vivem com o ex-padre foram levados à delegacia, onde prestaram depoimento. De acordo com a polícia, eles não foram investigados. "Não descartamos investigar os monges, mas eles também podem ter sido vítimas. Ambos negaram veementemente qualquer abuso e trouxeram informação que podem resultar outro tipo de indiciamento do religioso", disse Santis.

A investigação da polícia teve origem após a publicação de um livro escrito por uma das vítimas, que dá detalhes dos atos. O empresário Marcelo Ribeiro, de 48 anos, diz que sofreu abusos do ex-padre na cidade gaúcha de Novo Hamburgo.

Expulsões. O religioso foi excomungado da Igreja Católica e expulso da Igreja Anglicana em razão das denúncias feitas por suas vítimas. Em 2009, ele fundou em Caçapava do Sul uma abadia e a Igreja Veterodoxa, movimento religioso argentino. No local, dois meninos em vulnerabilidade social ainda teriam aulas de música.

Conforme as investigações, em alguns casos o suspeito dopava as vítimas e, em outros, passava a ideia de que os atos praticados por ele seriam um prêmio aos melhores alunos das aulas de música. Uma das vítimas também denunciou que o ex-padre a ameaçava para que não falasse sobre o assédio e abusos sofridos.

"Esperamos que apareçam mais casos. Não é possível que em 50 anos ele tenha abusado apenas entre 1961 e 1964, depois pulado para 1985 e, mais à frente, entre 2007 e 2010. Esse distúrbio comportamental é uma coisa constante", avalia o delegado do caso.

Durante a operação Silêncio dos Inocentes, um revólver calibre 38 e uma espingarda foram apreendidos. Segundo o delegado, o ex-padre está sendo acusado de estupro de vulnerável, prescrição ilegal de drogas e racismo, pois há relatos de uma das vítimas de que ele tratava as crianças negras de forma desigual e com mais castigos.

O ex-padre foi encaminhado ao presídio da cidade, onde está em uma cela separada dos demais presos. Sua prisão temporária expira em 30 dias, podendo ser prorrogada por mais um mês até o término do inquérito.

A reportagem tentou contato com o advogado de defesa do religioso, mas não houve resposta.

Vítima. Um dos ex-alunos que se diz vítima do religioso é o músico e advogado gaúcho Alexandre Diel. "É uma alegria muito grande saber que a Justiça está sendo feita. Agora ele não vai mais cometer os crimes que cometeu comigo e outras vítimas", comemora. Diel afirma ter sido abusado por quase três anos enquanto era coroinha.

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