Ex-secretário é acusado de corrupção

Investigador diz que Lauro Malheiros Neto recebia propina dentro do gabinete para anular demissão de policiais

Marcelo Godoy e Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

10 Fevereiro 2009 | 00h00

O investigador Augusto Pena acusou o ex-secretário adjunto de Segurança Pública Lauro Malheiros Neto de participar de um esquema de corrupção e receber propina dentro de seu gabinete, na Rua Líbero Badaró, 39. O dinheiro serviu para anular a demissão de policiais acusados de corrupção. A suposta relação entre Malheiros Neto e o investigador, principal envolvido no escândalo dos achaques à cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), havia motivado a demissão do secretário adjunto, em maio de 2008. O advogado de Malheiros Neto, o criminalista Alberto Zacharias Toron, considerou as declarações do investigador "levianas". "Ele vai ter de provar." Homem de confiança do secretário Ronaldo Bretas Marzagão, o ex-adjunto assinava as decisões sobre os processos administrativos envolvendo policiais acusados de corrupção em nome do secretário. Esses processos são instaurados pela Corregedoria da Polícia Civil toda vez que um policial comete falta grave ou crime. Depois de concluídos, eles são encaminhados para o Conselho da Polícia Civil. Em um caso contado por Pena, o conselho havia deliberado pela demissão de três investigadores. A decisão foi homologada pela secretaria em 2006, no fim da gestão de Saulo Abreu. Mas, após a posse Malheiros Neto, os policiais entraram com pedido de revisão e conseguiram que a demissão fosse revertida. Os policiais, segundo Pena, pagaram R$ 300 mil de propina. Além de Malheiros Neto, o policial denunciou ainda o advogado Celso Augusto Hentscholer Valente, que seria amigo de Malheiros Neto, de intermediar as negociações com os policias interessados em comprar as sentenças dos processos. Pena foi ouvido pelos promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de Guarulhos na quarta-feira passada. Preso desde maio, ele procurou os promotores espontaneamente. Quer ter direito à delação premiada e se acha em perigo por causa dos fatos que sabe. O policial confessou ter sequestrado e extorquido Rodrigo Olivatto de Morais, de 29 anos, enteado do líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Entregou os nomes dos policiais que participaram do achaque e contou como foram divididos os R$ 400 mil da extorsão. Acusou ainda delegados e investigadores de receberem propinas. Pela primeira vez, Pena confirmou que tinha um relacionamento estreito com Malheiros Neto. Sua ex-mulher Regina Célia Lemos de Carvalho, em entrevista ao Estado, havia dito que eles eram "superamigos". Ela disse que o marido dividia dinheiro até de venda de mercadorias roubadas, afirmando que certa vez Pena entregou R$ 100 mil ao ex-secretário adjunto. Ainda em maio, em depoimento aos promotores, o delegado Nelson Silveira Guimarães, então superior de Pena, contou que o então secretário havia intercedido em favor de Pena para que o policial, afastado sob a suspeita de extorquir Morais, fosse trabalhar no Departamento de Investigações sobre o crime Organizado (Deic), órgão da elite da polícia. Pena afirmou que ia frequentemente à secretaria. Indicou aos promotores como provar sua relação com o adjunto. O investigador contou que tem gravações, mas não as entregou aos promotores do Gaeco. Além de sequestrar o enteado de Marcola, Pena é acusado de sumir com uma carga de Playstation apreendida pelo Deic e de extorquir R$ 150 mil de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, integrante da cúpula do PCC. Ao acusar o ex-marido, Regina Célia entregou ao Gaeco 200 CDs com gravações de escutas telefônicas feitas por Pena e usadas para achacar suas vítimas.

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