Executivo de SP passou três dias seqüestrado

O bandido entrou no carro e perguntou: "Quanto vale sua vida?" O administrador de empresas M.A.S., de 54 anos, respondeu: "Não sei. Ela está na sua mão. Vale quanto você quiser por ela." Assim teve início mais um seqüestro relâmpago em São Paulo, que duraria dois "longos dias".M.A.S. foi abordado por um homem branco armado com um revólver, quando estava parado num sinal, às 20 horas do dia 11 de dezembro, na Avenida Água Espraiada, zona sul. "Ele não fez muitas ameaças. Me mandou olhar para baixo e não tentar fazer nada."O bandido trocou de veículo. "Logo depois, paramos em outra rua e pegamos novamente o meu carro", disse, referindo-se a seu Ford Focus, encontrado em 25 dezembro queimado, em Mairiporã. A vítima não viu, mas acredita que outro bandido dava cobertura à ação.M.A.S. foi colocado no porta-malas de seu próprio carro. Rodaram muito. "Perdi a noção do tempo." A vítima foi levada para uma casa, provavelmente na Cantareira, zona norte. Teve as mãos e os pés amarrados e foi deixado num quarto. O administrador não sabia que no cômodo ao lado, outra vítima era mantida refém.O bandido - "com menos de 30 anos e que não falava gíria" - pegou todos os documentos de M.A.S. Fez saques e conseguiu R$ 600,00. "Ninguém falava nada. Não sabia o que estava acontecendo." Ele recebeu três refeições. "Outra pessoa tomava conta do cativeiro."Assim, passou terça, quarta e quinta-feira, dia 13 de dezembro. Naquela noite, o bandido pôs as vítimas no porta-malas do Focus. Andou um pouco e parou para libertá-las. "Ele indicou o caminho que a gente deveria seguir para achar ajuda."O criminoso devolveu os documentos a M.A.S., exceto o do veículo, o do banco e o crachá funcional. "Tenho medo, pois eles sabem quem sou, onde trabalho. Sempre acho que estão me olhando. Fico preocupado só em falar com estranhos."M.A.S. garante que não poderia descrever o bandido. "A gente não consegue olhar a pessoa de frente." Entre tantos medos e traumas, ficou a marca do momento em que foi libertado. "Parecia que a terra se abriu, de tanta felicidade de estar vivo." Desastre - O vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), Adriano Salles Vanni, aponta o aumento dos seqüestros como o principal desastre na política de segurança de São Paulo.As estatísticas de seqüestros não param de crescer, principalmente na Grande São Paulo e em Campinas. Os casos de seqüestros relâmpagos não entram na estatística. Para a Justiça, esse tipo de crime é roubo qualificado, pois o objetivo do criminoso não é o seqüestro e sim o roubo. Para a vítima tanto faz o motivo. Ela se sente seqüestrada.Segundo Vanni, os seqüestradores de hoje são os assaltantes de bancos de ontem. "Houve uma migração para o seqüestro. Até porque a polícia reprimiu bem os roubos a bancos. A Delegacia de Roubo a Bancos deveria dar suporte no combate aos seqüestros, porque conhece os criminosos, sabe como eles agem." Segundo Vanni, a delegacia tem banco de dados com as características dos bandidos.Vanni acusa ainda a Secretaria da Segurança Pública de não assumir o problema. "Falta admitir que esse é o maior desafio." O número de seqüestros, segundo advogado, tem causado pânico. "Pessoas estão vendendo o carro por medo de serem seqüestradas." Vanni ressalta a importância de que o governo continue retirando presos dos DPs. "Com os distritos sem presos a polícia poderá voltar a fazer o seu trabalho."

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