Exército culpa Estado pela união de ex-militares com o tráfico

O Exército responsabilizou a "incapacidade de o Estado prover a segurança pública" pelo envolvimento de ex-integrantes da Brigada Pára-quedista com traficantes no Rio de Janeiro. Em nota distribuída ontem à imprensa, o general-de-divisão Luiz Cesário da Silveira Filho, chefe do Centro de Comunicação Social, garantiu que os "desvios de conduta" na corporação "são ínfimos". "Em face da dificuldade de absorção da mão-de-obra pelo mercado de trabalho, quando do licenciamento das fileiras do Exército, passa-se a equivocada idéia de que recorrer ao crime organizado é a única alternativa para se sobreviver", escreveu o militar. Para ele, os cabos e soldados que foram desligados do Exército e passaram a trabalhar para o tráfico têm "falhas de caráter moral pré-existentes à incorporação no Exército". O Estado publicou hoje entrevista com um cabo pára-quedista desligado do Exército, a serviço da facção criminosa Comando Vermelho. Ele contou que foi cooptado por um colega de brigada, e aceitou se tornar instrutor de traficantes depois que ele e a família passaram por "necessidades". Em dois meses, o ex-cabo recebeu R$ 11 mil e participou de uma invasão a um morro na Tijuca, em que quatro traficantes de uma quadrilha rival foram mortos.Pela manhã, antes da divulgação da nota do Exército, o governador Anthony Garotinho, afirmou que a "segurança pública sempre foi prioridade do governo". "Tenho certeza de que acertamos mais do que erramos", afirmou Garotinho, que deixou o cargo para concorrer à presidência da República.O advogado Roberto Aguiar, que assume hoje a secretaria de Estado de Segurança Pública, reconheceu que a participação de ex-militares no tráfico de drogas dificulta o trabalho da polícia. "Mas se eles têm técnica de guerra, a polícia tem técnica de investigação para chegar a esses homens", afirmou Aguiar, que foi secretário de Segurança no Distrito Federal, durante o governo de Cristóvão Buarque. Aguiar disse ainda que o sistema de segurança pública tem que se sofisticar na proporção em que "a delinqüência" se aprimora. "Temos pouco tempo, mas vamos fazer um trabalho de fundo. Vamos deixar de agir apenas reativamente", afirmou.

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