REUTERS/Adriano Machado
REUTERS/Adriano Machado

Expedição pelo Paraopeba vê rio morto após rompimento de barragem

Rejeito mais denso faz curso d'água parecer 'chocolate derretido', compara pesquisadora; índice de turbidez é alto

Giovana Girardi, Enviada especial

31 de janeiro de 2019 | 20h30

BRUMADINHO (MG) - A cerca de 40 km abaixo do ponto em que a onda de rejeitos da barragem da Vale encontrou o Rio Paraopeba, uma pequena nascente, limpa, tenta se misturar ao rio e seguir seu curso. Em vão. O rio virou um tijolo líquido. Parece chocolate derretido.

A comparação é de Malu Ribeiro, coordenadora do Programa Água, da SOS Mata Atlântica, que lidera uma expedição iniciada nesta quinta-feira, 31, para monitorar a qualidade da água do rio após o rompimento da barragem e trazer algumas pistas sobre os impactos ambientais do desastre.

Ali, porém, não há indicador de qualidade nenhum a ser medido. A turbidez é tão alta e densa que tirou todo o oxigênio - o principal indicador de vida. Não é possível checar quantidades de nitrato, fosfato ou quaisquer outros parâmetros porque a água virou uma lama só. “A única coisa que podemos dizer aqui é que esse rio está morto”, afirma a pesquisadora.

O plano da expedição, acompanhada pelo Estado, é coletar água em vários locais a partir do marco zero, onde o rio foi contaminado, e checar as condições dele ao longo de seu curso em direção ao Rio São Francisco, por 356 km. A expedição tem previsão de seguir até a hidrelétrica de Três Marias, já no São Francisco.

Há três anos, Malu e equipe encararam um cenário de desolação semelhante no Rio Doce, atingido pela lama da Samarco, no que foi considerado o maior desastre ambiental do País. Algumas condições são diferentes. “Lá o rejeito era mais fino e ficava sobre a água, não decantava. Aqui, tomou tudo. É lama mesmo. A corredeira vai movimentando como se fosse uma batedeira de bolo”, explica.

Outra diferença importante, segundo Malu, é o local atingido primeiramente, que é de cabeceira. “Aqui a lama ficou depositada em várias nascentes que abastecem o Paraopeba. Ela vai continuar descendo constantemente junto com a água.”

Tiago Silva, biólogo da equipe, explica que um rio só retorna à vida com mata nas suas margens, com rios limpos desaguando nele, com nascentes limpas. “Aqui onde estamos vemos uma nascente chegar nele com a água transparente, mas nesse momento ela só encontra a lama”, diz.

O primeiro dia de expedição teve coleta em três pontos. O primeiro é ao lado de onde a onda de rejeito atingiu o Paraopeba. Análises anteriores feitas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) apontavam que o local tinha qualidade de água em nível regular. Nesta quinta, já estava ruim.

E ali estávamos um pouco antes do ponto de impacto. “Mesmo esse ponto que, visualmente, parece não ter nada, já está sentindo a contaminação. Houve uma espécie de refluxo. O oxigênio caiu, fósforo e nitrato estão altos.” Os outros dois pontos, em Brumadinho e logo após a cidade, já estavam mortos.

Diversidade

De acordo com o Comitê de Bacias do Rio Paraopeba, existem no local 86 espécies de peixes. Os mais comuns são corvinas, curimbatás, surubins e dourados, que abastecem a pesca na região.

 

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