Experts criticam anúncios de carros

Para eles, publicidade estimula aspectos negativos do comportamento no trânsito, como velocidade excessiva

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

O carro sobe a ladeira enquanto os ocupantes atiram objetos pela janela. Outro avança sobre pedestres na faixa. Se fossem de verdade - e tivessem sido flagradas por um fiscal -, essas cenas poderiam causar perdas de ponto na carteira de habilitação. Mas as imagens são parte de propagandas de automóveis, que têm provocado discussões sobre até que ponto a publicidade pode contribuir para a violência e o desrespeito no trânsito. Em trabalho publicado este ano na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, o sociólogo e mestre em Transportes Urbanos Roberto Victor Pavarino Filho e a psicóloga Ilana Pinsky, especializada na análise de comerciais de cervejarias, alertam que os anúncios da indústria automobilística fazem a apologia da velocidade - um componente diretamente relacionado aos danos de eventuais acidentes. "Há uma clara incitação à violência", afirma Pavarino, ex- consultor do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). "As propagandas de bebida transgridem mais sob a justificativa do bom humor. No caso da propaganda de automóveis, há uma valorização explícita da velocidade", diz Ilana. Os autores citam uma dissertação de mestrado realizada na Universidade de Brasília em 2004 segundo a qual nos comerciais de carros aspectos negativos (sarcasmo, rivalidade, velocidade e transgressão) superam os positivos (cuidado, estabilidade e segurança). A indústria afirma que há excesso de cobrança sobre os anúncios, caracterizados como peças de ficção feitas para adultos, e denuncia o risco da censura (Veja texto ao lado). "Seriam infindáveis os exemplos dos valores negativos propagados", afirmam Ilana e Pavarino na pesquisa publicada pela Revista de Psiquiatria. Eles citam "campanhas publicitárias de veículos picapes publicadas em revista de grande circulação nacional com chamadas como ?homem que é homem não buzina, assusta o carro da frente? ou ?faça parte de uma minoria esmagadora?." Os dois exemplos foram colhidos pelo Departamento de Trânsito do Rio Grande do Sul, que tem reclamado seguidamente de comerciais da indústria. "Eu diria que a propaganda não mudou nada em dez anos do Código de Trânsito. É a antítese das políticas de educação", afirma o diretor do departamento, Flávio Vaz. Entre fevereiro e julho, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) analisou mensalmente - com exceção de março - pelo menos uma reclamação contra comerciais de veículos que mostravam desrespeito às normas do trânsito. Em julho, por exemplo, foi avaliado o comercial do Peugeot 206, que, para destacar a potência do carro, mostrava outro veículo subindo uma ladeira com dificuldade, enquanto o casal no banco da frente atirava objetos pelas janelas - e até cogitava expulsar uma velhinha com jeito de sogra sentada no banco traseiro. A cena foi questionada pela direção do próprio Conar e por mais de cem consumidores, por ferir o Código Brasileiro de Trânsito. Outro comercial, do Chevrolet Prisma, da GM, foi criticado pela suposta violência da cena em que, num ambiente semelhante ao dos videogames, o motorista avançava em direção a dois corretores de imóveis "malas" (chatos). Segundo a empresa, o comercial faz alusão à compra do primeiro imóvel, um dos desafios que o jovem consumidor do carro tem de vencer na vida. No caso da propaganda do EcoSport, da Ford, analisada em fevereiro, o anúncio mostrava o pé esquerdo de um chinelo no lugar da embreagem - alusão ao fato de o carro ter câmbio automático. A questão é que o código proíbe dirigir de chinelos. O Conar recomendou a retirada do ar primeiro comercial e modificações nos dois últimos. Também um comercial do Fiat Palio recebeu recomendação de alteração, em abril. Na peça, um rapaz empolgadíssimo salta em queda livre. Ele "cai" no banco do motorista de um Palio e sai com o veículo em alta velocidade.

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