Experts esperam por explicação de falha

Para eles, apenas o erro humano não isenta a pista ou a Airbus

Alexandra Penhalver e Fred Melo Paiva, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

A falha do piloto no manejo dos equipamentos do Airbus da TAM que se chocou contra o prédio da empresa não pode ser apontada como causa única para o acidente que matou 199 pessoas no último dia 17. Essa é a opinião dos especialistas ouvidos pelos Estado. "Se o erro tivesse acontecido em um aeroporto melhor estruturado do que o de Congonhas, sem dúvida a situação teria sido outra", diz o o engenheiro Cláudio Jorge Alves, professor titular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). "Sem uma área de escape, suas pistas não deveriam ser usadas por aviões do porte de um Airbus A320." O diretor do Sindicato dos Aeronautas, o comandante Carlos Camacho, também é assertivo com relação ao comprometimento da pista, mesmo que o manete tenha sido umas das causas da tragédia. "Mas é claro que a pista teve influência. Com 1.940 metros, o tempo para resolver um problema, de 2 a 5 segundos, não é suficiente para o piloto", afirmou Camacho. Segundo ele, é possível que diante do impasse o piloto tenha tido um "bloqueio mental na tentativa de compreender o problema e encontrar uma solução". Congonhas também não tem a área de escape chamada tecnicamente de Área de Segurança de Final de Pista (Resa, na sigla em inglês), que poderia reduzir os danos. Para o diretor-executivo da Associação Brasileira da Aviação Geral (ABAG), engenheiro Adalberto Febeliano, a Airbus também não pode ser responsabilizada solitariamente pelo desastre, caso se comprove que houve falha humana durante o procedimento de pouso da aeronave. "A operação incorreta dos aviões é fato recorrente, e por isso há tanto treinamento", disse. "Por mais que se criem barreiras para impedir o erro, os pilotos ainda cometem equívocos que podem levar a grandes tragédias." "Vale dizer que podemos suspeitar, mas só teremos certeza do que houve depois que os dados das duas caixas-pretas forem liberados", completa o brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira, ex-secretário-geral da Organização Internacional da Avião Civil (Icao, na sigla em inglês). Os próprios investigadores da Aeronáutica ressaltam que só o confronto de dados com o gravador de voz pode indicar o que fez o piloto errar. FATORES Já o engenheiro Alves, do ITA, não isenta de culpa a empresa fabricante do avião, caso fique comprovado que o posicionamento errado de um manete operado pelo piloto impediu a frenagem adequada da aeronave. "Se o computador de bordo não consegue chamar a atenção para a falha do piloto, então temos um grave problema de fabricação da máquina", aponta. "Com tanto aparato tecnológico, um erro dessa natureza não deveria se transformar em um acidente inevitável." O brigadeiro Pereira também não descarta nenhuma hipótese e é categórico ao afirmar que "do jeito que estava operando a pista (do Aeroporto de Congonhas), teria comprometimento de qualquer jeito." Camacho afirmou que vários fatores causaram o acidente. "É fato que houve falha humana, mas os problemas que resultaram no acidente começaram no projeto do avião da Airbus, passaram pelos comandantes, pelo presidente da TAM e pelas autoridades brasileiras, que decidiram liberar o funcionamento de Congonhas." Segundo Febeliano, a Airbus teria feito alertas sobre o uso correto do manetes depois dos acidentes registrados nas Filipinas (1998) e em Taiwan (2004). "Nos próximos 2 ou 3 anos, nenhum piloto vai se equivocar outra vez", aposta. "Mas, com o passar do tempo, infelizmente vai acontecer de novo." Na avaliação do brigadeiro Pereira, é prematuro afirmar que os problemas com o manete são fundamentais, até que sejam divulgadas as informações oficiais do conteúdo das caixas-pretas. "A Airbus divulgou a nota sobre os acidentes de Taiwan e Filipinas, mesmo sem ter certeza do que houve no Brasil."

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