Explicação seletiva na forma e incompleta no conteúdo

A explicação do ministro Antonio Palocci sobre suas consultorias privadas em meio à vida pública foi seletiva na forma e incompleta no conteúdo.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 00h00

Em uma democracia avançada, um governante sob suspeita convoca uma entrevista coletiva e se submete às perguntas de todos os repórteres, de todos os meios de comunicação. Palocci preferiu selecionar o terreno e restringir o número de entrevistadores. É uma tática de guerra escolher o campo de batalha para obter alguma vantagem.

Palocci tentou controlar o ambiente não apenas escolhendo o Jornal Nacional da Rede Globo (o líder de audiência jornalística), mas também evitando dar uma entrevista ao vivo. A opção por uma entrevista gravada e editada, circunstância em que há menor pressão sobre o entrevistado, não ajudou a dar transparência ao processo.

Experiente, o ministro demonstrou autocontrole, sorriu e se esforçou para ser simpático com o repórter. Mas, nos detalhes, revelou sua tensão: a boca estava seca, os dedos tamborilavam na outra mão pousada sobre a mesa, pigarreou várias vezes.

No conteúdo, Palocci não acrescentou nenhuma informação que já não fosse de conhecimento público. Ele foi evasivo e impreciso sobre os valores que faturou com a empresa de consultoria. Disse apenas que o faturamento foi crescente ao longo dos anos e que ficou próximo dos R$ 20 milhões em 2010.

Ao não declarar o nome dos clientes, nem quanto e quando cada um pagou pelos seus serviços, o ministro está fazendo um apelo para que as pessoas acreditem na sua palavra de que ele não fez tráfico de influência nem desrespeitou a lei. Alguns acreditarão, outros não.

Ele chegou a explicitar isso quando disse que é preciso acreditar na boa-fé das pessoas. "Eu não fiz tráfico de influência, como eu provo isso?"

A resposta é: sendo transparente em relação aos clientes, a quanto cada um pagou, por qual tipo de serviço e quando.

Palocci tem razão quando diz que cabe ao acusador provar a acusação. Mas o faturamento muito maior no ano da eleição de 2010, quando foi figura-chave da campanha vencedora à Presidência da República e participou informalmente da transição de governo, é indício suficiente para que haja uma investigação.

O ministro deu a entender que informará à Procuradoria-Geral da República a relação de seus clientes. Só então e se isso acontecer é que haverá elementos suficientes para que haja um cotejamento das atividades dos clientes do ministro com as ações do poder público.

Até lá, sem informações específicas, acreditar no ministro é questão de fé.

É COLUNISTA DO "ESTADO"

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