Exposição resgata ''''pai'''' do Borba Gato

Escultor Julio Guerra tem outras obras espalhadas pela cidade

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

01 de novembro de 2007 | 00h00

Há quem não saiba ao certo quem foi o escultor Julio Guerra, mas é raro encontrar um paulistano que não conheça sua obra mais famosa, a estátua do Borba Gato, que desde 1963 está na Avenida Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Uma exposição inaugurada hoje no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Santo Amaro tenta inverter essa história, ao mostrar outras obras do artista espalhadas pela cidade, além de tentar mostrá-lo como um artista injustiçado e até incompreendido. "Ele era tão representativo para a cidade como Victor Brecheret", diz museólogo Gilberto Habib Oliveira, curador da exposição. "Ele se equipara pelas proporções e qualidade das obras."Na exposição, o público fica sabendo que são muitas as obras assinadas pelos autor espalhadas pela cidade. Entre elas, duas imagens, de São José e Santana, que estão na frente da Igreja Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, zona sul. Uma das mais conhecidas é a escultura de bronze fundido e patinado do Largo Paiçandu, no centro, feita em homenagem às mucamas negras, que amamentavam os filhos dos senhores de engenho na época em que o Brasil era uma colônia. Inaugurada em 1954, a escultura foi a vencedora de um concurso público elaborado justamente para escolher a obra que seria colocada ali. "Julio (Guerra) é um dos artistas mais premiados e experientes entre os modernistas, apesar de não ter participado do movimento da Semana de Arte Moderna de 1922", diz Oliveira. "Guerra ficou à sombra do movimento", diz a antropóloga Maria Lúcia Montes, que durante quatro meses pesquisou a vida do artista para montar a exposição. "Sua obra não foi levada a sério porque pertencia a uma corrente de modernistas italianos, diferente de Tarsila do Amaral, que se inspirava nos franceses. "Por isso buscava referências regionais, como a cerâmica nordestina", explica Oliveira. A estátua do Borba Gato é a maior expressão dessa busca pela regionalidade. "A estátua parece mesmo um bonecão de Olinda", diz o arquiteto urbanista Paulo Bastos. "Mas ele me assusta pela feiúra e pelos traços primitivos. Ele parece um boneco de barro ampliado numa escala desproporcional." Bastos não é o primeiro a se impressionar com o bonecão. "O próprio Julio Guerra dizia não se incomodar quando falavam mal da estátua do Borba Gato. Para ele, o que matava era a indiferença e, quanto mais se falava na obra, mais significativa ela se tornava", diz Oliveira. Por mais polêmica que seja, a estátua virou um marco da cidade. "A questão estética é o que menos importa. O fundamental seria discutir uma política de inserção de obras, que levasse em conta as características do lugar e a própria obra", diz a artista plástica Elisa Bracher. TOUR EM SANTO AMARO A exposição apresenta 17 obras de Guerra. Com a ajuda de três vídeos - O Artista em Seu Tempo, O Homem e Sua Obra, Julio Guerra Hoje -, oferece uma visão ampla de sua produção. Às terças-feiras, às 14 horas, o Sesc oferece dois passeios gratuitos que levam o público a um giro pela cidade para conhecer as mais relevantes obras do autor em Santo Amaro. O grupo sai a pé e volta de van. No circuito está o Teatro Paulo Eiró (na Avenida Adolfo Pinheiro), o Monumento aos Romeiros (na Rua Carlos Silva Araújo) e a estátua de São Paulo (na frente do Shopping Morumbi). O tour não poderia acabar em outro ponto: a estátua do Borba Gato.

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