Exposição retrata as vítimas de armas de fogo no Rio

Fotógrafa francesa acompanhou enterros por 2 anos

Pedro Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

04 de março de 2009 | 00h00

Após mais de dois anos fotografando velórios e enterros das vítimas de armas de fogo no Rio, a fotógrafa e documentarista francesa Aude Chevalier-Beaumel, de 26 anos, inaugura hoje, no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, Rio, a exposição P.A.F. (Perfuração por Arma de Fogo), nomenclatura usada por legistas para as mortes causadas por tiros. "Falta à nova geração de artistas brasileiros uma arte engajada no sentido da abordagem de temas polêmicos", disse.Há seis anos entre Brasil e França, Aude se impressionou com o alto número das vítimas de armas de fogo no Rio. A ideia para a exposição surgiu quando, em uma das idas à França, ela encontrou um cartão-postal de 1934 com a foto de uma menina de 9 anos morta em cima de uma cama. "Era como se anunciava, no interior da França, a morte de um ente querido", contou.Aude, então, usou o antigo hábito francês para resgatar as histórias de vida das vítimas da violência. "Sempre me perguntei quem eram essas pessoas e por que estavam morrendo dessa forma. Na exposição, cada visitante receberá um postal com a história de vida delas. É uma forma de passar adiante o que vi e ouvi quando fotografava." De acordo com o Instituto de Segurança Pública, entre janeiro e outubro de 2008, 5.701 pessoas morreram vítimas de armas de fogo, entre casos de homicídios, confronto com a polícia e policiais assassinados em serviço.Formada pela Escola Nacional de Belas Artes de Montpellier, Aude usou na exposição recursos de áudio e vídeo. Em um vídeo, ela mostra o hábito brasileiro de amenizar o cenário do enterro com flores.A fotógrafa só não conseguiu acompanhar as cerimônias em que as vítimas eram policiais militares. "Tentei duas ou três vezes, mas aí entra a instituição (Polícia Militar) e fica impossível. Então, fotografei vítimas de bala perdida, pessoas cujos parentes diziam que eram inocentes e até casos em que a vítima estava realmente envolvida com o crime." Entre os mortos, algumas das vítimas da polêmica ação policial no Complexo do Alemão, em junho de 2007, que resultou na morte de 19 traficantes. Apesar de ter sido hostilizada por PMs após um velório na Favela do Fumacê, em Realengo (zona oeste), a francesa disse que não teme reações agressivas. "Sei que o trabalho é polêmico, mas posso contribuir com o olhar estrangeiro", analisou. A visitação ocorre até 26 de abril, de terça a domingo, das 12horas às 19h.

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