FAB depende dos caças para reorganizar Defesa

Escolha do F-X2 está entre as pendências do governo; financiamento prevê o primeiro desembolso só em 2012

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

O presidente Lula e a presidente eleita Dilma Rousseff querem discutir a escolha de novos caças para a aviação de combate e, assim, acabar com um impasse do governo federal que se alonga por 15 anos. Segundo revelou ao Estado um integrante da equipe de transição, o tema está na agenda das prioridades estratégicas ainda pendentes - que não devem chegar ao dia 31 sem definição.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, que em 20 de novembro previu a possibilidade de haver uma resolução até hoje, disse na segunda-feira que a situação está seguindo a liturgia exigida: "Reunidos, o presidente Lula e a presidente Dilma vão tomar uma decisão". Outro adiamento da escolha do projeto F-X2 para depois da posse da presidente eleita só seria justificado por motivos políticos.

Dilma não estaria convencida das vantagens oferecidas pela proposta considerada favorita, a da francesa Dassault, com seu supersônico Rafale. Pediu mais detalhes à Defesa e já recebeu as informações.

A questão técnica do F-X2 foi resolvida. A conclusão do time de peritos é de que os três finalistas podem cumprir a missão pretendida pela Aeronáutica, de acordo com a peculiaridade de cada um dos projetos.

O americano F-18 E/F é o mais provado em batalha. O sueco Gripen traz a possibilidade do desenvolvimento de uma aeronave de combate em grande parte brasileira. O francês Rafale oferece entrega irrestrita de tecnologia, a cláusula fundamental das consultas feitas pela FAB. A França mantém uma parceria estratégica e militar com o Brasil por meio de ampla cooperação no campo nuclear. O resultado desse acordo é o desenvolvimento de uma família de submarinos de propulsão atômica, armados com torpedos e mísseis. O primeiro vai para o mar em 2021.

Dinheiro. É relativa a razão econômica e financeira alegada pelo presidente Lula para transferir a oportunidade do contrato para sua sucessora.

No negócio, avaliado entre US$ 4 bilhões e US$ 6,2 bilhões, não há previsão de nenhum pagamento a curto prazo - à exceção de um adiantamento pós contrato, da ordem de US$ 100 milhões. Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, o dinheiro sairá do caixa apenas no fim de 2011 ou início de 2012 na eventualidade de a seleção ser completada até o fim da administração Lula. Na prática, o desembolso principal será uma preocupação só a partir da segunda metade do segundo ano do mandato de Dilma.

O processo é semelhante ao adotado no outro acordo, firmado em 2008 com o governo da França, para transferência de tecnologia, projeto e construção de quatro submarinos diesel-elétricos, mais o casco de um submarino nuclear.

Depois do anúncio do modelo escolhido no projeto F-X2, será necessário, como aconteceu com os navios, um ano para a discussão do contrato principal e dos compromissos acessórios. O grupo bilateral encarregado terá ainda de definir a arquitetura da cooperação. No caso da Marinha foi criado o consórcio CBS, envolvendo a Força Naval, o estaleiro francês DCNS e a construtora brasileira Odebrecht. Além dos navios, o grupo terá de entregar um estaleiro e uma base militar. O valor da encomenda é de 6,7 bilhões. O financiador é o BNP Paribas. Os juros são de 5,5% ao ano.

Nesse ponto, para que a transação possa ser executada e a encomenda entre na linha de produção, é que será feito o depósito de um sinal, destinado ao custeio das providências iniciais. As três propostas contemplam prazos de carência para o início do pagamento do financiamento internacional - tudo em parcelas semestrais, intercalando prestações referentes aos juros e à amortização da dívida principal. Há também uma contrapartida do Tesouro, bancada em reais.

O primeiro lote do F-X2, qualquer que seja o eleito, precisa ser entregue em 2014. A frota prevista, de 36 unidades, é parte de um projeto muito amplo, de redistribuição da aviação de caça. Grupos e esquadrões estão sendo transferidos de forma gradativa para a Amazônia, o Nordeste e o Centro-Oeste. O Esquadrão Pacau, de Natal, chegou de mudança a Manaus faz uma semana, levando seis caças F-5M.

Presença. A versão final do programa de reorganização da FAB foi apresentada a Jobim em 2008. O plano prevê novas unidades e disposição dos meios. A frota de ataque, hoje concentrada em bases alinhadas no litoral, na Região Sul, e apenas recentemente presente no território amazônico, vai chegar ao chamado Vazio Norte. E não apenas os caças pesados - há os Super Tucanos de Campo Grande, Boa Vista e Porto Velho. Para Rondônia estão sendo levados os impressionantes "tanques voadores", helicópteros russos Mi-35 que a Força começou a receber em julho. Foram comprados 12 deles. A fatura bate em US$ 250 milhões. A tripulação - dois pilotos - ocupa cabines independentes cobertas por globos blindados. O compartimento traseiro acomoda até oito soldados equipados. Os cabides externos levam 1.500 quilos de armas - mísseis, foguetes, bombas de até 500 kg - ou 2,5 toneladas de carga. Toda a seção inferior é revestida com placa bimetálica resistente ao calibre .50 ou estilhaços de granadas. Sob a seção dianteira, um poderoso canhão 30 mm.

O empreendimento depende da chegada do caça de alta tecnologia. Sem ele, garante um brigadeiro, ficam inviabilizadas as metas, a começar pela modernização do 1.º Grupo de Defesa Aérea, de Anápolis, responsável pela guarda de Brasília e de um vasto painel de instalações estratégicas. Todas as aeronaves em uso - Mirage-2000C/B, F-5M e AMX - entram em desativação por fadiga e obsolescência em quatro anos. Os últimos farão seu pouso final entre 2021 e 2023. A frota a ser formada com os novos supersônicos vai a 120 jatos. Serão contratados em etapas e produzidos no País.

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