FAB vai treinar mulheres para pilotar

A partir desta terça-feira, a gaúcha Camila Bolzan, uma loira de 18 anos, 1,70 metro de altura e 53 quilos, vai amanhecer em uma rotina militar, na Academia da Força Aérea Brasileira (AFA), uma das escolas de formação de oficiais da Aeronáutica, em Pirassununga, a 200 quilômetros de São Paulo.Ela vai deixar de lado as danceterias de Porto Alegre, uma de suas distrações, e passará a acordar às 6 horas, ao toque da corneta. Começará o dia com marcha. Depois do café, enfrentará aulas teóricas de vôo, exercícios e aconselhamento.Às 22 horas, terá de estar na cama. Camila sabe que o dia desta segunda-feira entrou para a história como o primeiro em que a Força Aérea Brasileira (FAB), em seus 60 anos, recebe mulheres para o curso de cadetes-aviadores. A turma tem 17 jovens com idades entre 17 e 21 anos, vindas de vários Estados. Para participar, elas passaram por uma seleção difícil, com provas teóricas, físicas e médicas.Na estréia, porém, nada de trabalho muito pesado. Elas posaram para fotos do lado do T-25, primeiro avião que vão pilotar, dentro de um ano, e ainda ganharam de presente uma apresentação da esquadrilha da fumaça. As cadetes sabem, no entanto, que daqui para frente a rotina será complicada."Vai ser puxado, mas é um desafio que me encanta", diz a aluna Camila Bolzan. "Tinha esse sonho porque meu pai estudou em colégio militar e meu avô foi do Exército, mas achava que não era possível porque a Força Aérea não formava mulheres."Segundo o tenente-coronel-aviador Waldeísio Ferreira Campos, comandante do corpo de cadetes da Aeronáutica, Camila e suas colegas terão tratamento equivalente ao dos homens cadetes. Ficarão 30 dias sem contato com a família, fase do estágio inicial.Nos quatro anos do curso, não poderão casar ou ter filhos. Se quiserem namorar um aluno da academia, terão de comunicar oficialmente ao seu superior. Mas o relacionamento só pode ocorrer fora do quartel.Resignado, o estudante Gabriel de Oliveira Cruz do Prado, de 20 anos, se despediu da namorada Carla Alexandre Borges, de 19. "Só me resta dar apoio a ela", diz Cruz. "Se a Carla continuar na academia, pretendo vir para cá e seguir carreira de piloto."Deixar o curso, é claro, não está nos planos da jovem. "Se tudo der certo, aos 26 anos posso pilotar um caça", afirma Carla. Segundo Campos, o sonho dela não é impossível. "Daqui uns 12 anos, aquelas que forem melhor poderão compor a esquadrilha da fumaça." Mas o oficial diz que o caminho exige dedicação. "As pessoas não sabem como se adaptam no vôo. Tem gente que chega lá e percebe que falta noção de sentido, passa mal ou tem dificuldade psicomotora."Como Camila, Graciela Seibert Lyrio, de 21 anos, se inspirou no pai, que é militar, na hora de escolher uma carreira. Jogadora de capoeira, tímida, soube do concurso pela internet e conseguiu passar porque tem um centímetro a mais que os 1,60 exigidos.Fernanda Kozlowski Görtz, de 19 anos, é uma das poucas que já tem experiência. Ela fez curso, tem brevê de piloto comercial e dava aulas no Aeroclube de Florianópolis. "Pilotar é muito estimulante."Filha de um comandante da Varig, ela diz que se acostumou, desde menina, a admirar a profissão. "Lá no alto, no meio do céu, me sinto mais segura." Opinião semelhante tem Rebeca Assunção Mattjie, a primeira colocada. Para ela, voar é uma paixão e exige disciplina.

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