FAB vê falha humana em queda de Learjet

Piloto falava no Nextel ao decolar; relatório do Seripa condena prática

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

O Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos em São Paulo (Seripa 4) divulgou ontem relatório preliminar sobre as causas da queda do Learjet 35 da Reali Táxi Aéreo, no dia 4 de novembro, na zona norte da capital. O jato caiu sobre casas e houve a morte de oito pessoas. As três recomendações de segurança emitidas pelos militares são endereçadas às tripulações de aeronaves do mesmo modelo, indicando que houve falhas operacionais dos pilotos. O teor de uma das recomendações também confirma rumores surgidos no início das investigações: o piloto Paulo Roberto Montezuma Firmino, de 39 anos, conversou em seu rádio Nextel até minutos antes da decolagem, no Campo de Marte. Tudo indica que essa distração, somada ao desbalanceamento da quantidade de combustível nos tanques do avião, contribuiu para a queda. Peritos da Aeronáutica têm evidências de que a tripulação do Learjet não fez o "check list" da aeronave. O procedimento é obrigatório e evita que os pilotos decolem sem verificar o funcionamento dos principais sistemas de comando, como motores e controles direcionais. Os militares apuraram ainda que o jato foi abastecido com mil litros de querosene, distribuídos igualmente nos tanques das asas. Toda a preparação para o vôo foi feita pelo co-piloto Alberto Soares Júnior, de 24 anos, sem a supervisão de Firmino, que cuidava de assuntos administrativos. A segunda recomendação de segurança adverte os tripulantes justamente para esse tipo de descuido. Soares Júnior era novato e não havia concluído o processo de instrução em vôo. "Os comandantes, notadamente aqueles em função de instrutor", destaca o documento, devem supervisionar "as tarefas incumbidas aos demais tripulantes, de modo a permitir o perfeito acompanhamento de todas as fases do vôo e a conseqüente manutenção de elevada consciência situacional".Antes da decolagem, o co-piloto deu duas partidas nos motores, enquanto o comandante estava fora da cabine. A primeira foi abortada por causa da não indicação de pressão do óleo. Apesar disso, os investigadores descartaram panes nas turbinas ou problemas de "travamento, disparo ou perda das superfícies de comando". A suspeita inicial era de que uma falha num dos motores teria provocado a queda, uma vez que as estruturas internas dos propulsores estavam danificadas de maneiras distintas. No momento do impacto com as casas, ambos os reversos (freios aerodinâmicos) estavam fechados. Ou seja: os pilotos nem tiveram tempo de acioná-los. O relatório preliminar confirma que o avião percorreu a pista do Campo de Marte normalmente. Em seguida, segundo relatos de testemunhas e de controladores de vôo, o Learjet começou a se inclinar para a direita, caindo num ângulo de 90 graus em relação ao solo.DÚVIDASApós um mês e meio de investigações, no entanto, algumas dúvidas ainda não foram esclarecidas pelos peritos da Aeronáutica. Apesar de os indícios apontarem para o desbalanceamento da quantidade de combustível nos tanques, não se sabe se ela ocorreu por um erro na operação de abastecimento ou por uma pane nas bombas que transferem querosene de uma asa para a outra.O abastecimento do Learjet requer cuidados especiais. O modelo 35 possui um tanque em cada asa, além de dois reservatórios na ponta delas, chamados de "tip tanks". Os pilotos devem sempre verificar se o procedimento foi feito corretamente, observando a indicação dos liquidômetros no painel da cabine.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.