Fábricas de bolas estariam à serviço do crime organizado

O Ministério Público Estadual (MPE) desconfia que drogas, armas e telefones celulares entravam em uma dezena de presídios do Estado por meio de esquemas com fábricas de bolas que eram costuradas pelos presos. A empresa que se valia da mão-de-obra de detentos era uma parceria do advogado Eduardo Diamante e do preso Bruno Cesar Pascini.Diamante foi preso na semana passada sob a acusação de servir de pombo-correio para cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre as tarefas de que ele é acusado de desempenhar está a de entregar R$ 15 mil e três telefones celulares para líderes do PCC detidos na Penitenciária-2 de Presidente Venceslau.O Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) descobriu que o endereço da empresa Diamante e Pascini Ltda na Junta Comercial é frio. A empresa está registrada em um endereço na cidade de Tarabai, no oeste paulista. "Existem informações de que drogas, celulares e armas entravam dentro das bolas", disse o promotor José Reinaldo Guimarães, do Gaeco.As bolas recebiam acabamento feito pelos presos. Quando apresentavam defeito, elas retornavam para novos arremates. Era então que os objetos seriam introduzidos nas bolas. O Gaeco pediu nesta quarta, 5, à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), que tome providências contra a empresa. Os promotores querem que a empresa seja proibida de usar mão-de-obra nos presídios. A SAP informou que suspendeu o trabalho da empresa logo após a prisão do advogado. PresídiosDurante as investigações do Gaeco, os promotores descobriram que o PCC ordenou a destruição de todos as penitenciárias federais em construção no País. A decisão foi tomada pela liderança da facção criminosa, além de ter sido sugerida à organização pela advogada Valéria Dammous, presa na semana passada em Presidente Prudente.O objetivo do PCC é impedir que seus líderes sejam isolados em presídios como o de Catanduvas, no Paraná, único dos cinco previstos pelo governo federal já concluído. A informação sobre a ordem do PCC consta da denúncia apresentada à 13ª Vara Criminal ontem por sete promotores do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco).Segundo os promotores, Valéria soube da ordem depois de sugerir a destruição das prisões ao detento Orlando Mota Júnior, o Macarrão. O encontro ocorreu em 5 de junho na Penitenciária-2 (P-2) de Presidente Venceslau. Integrante da cúpula da facção, Macarrão exerce a função de torre-geral, o coordenador de todas as cadeias da facção.No mesmo dia, Macarrão lhe deu a ordem para "virar duas cadeias" (rebelar) na região oeste de São Paulo: Flórida Paulista e Lavínia. A mensagem devia ser transmitida pela advogada para o preso Anderson de Jesus Parro, o Moringa, integrante do segundo escalão da organização, que estava detido na Penitenciária de Getulina. No dia 7, Valéria encontrou-se com Moringa e repassou as determinações de Macarrão. O resultado foi o começo da greve branca que paralisou 17 presídios no Estado - os detentos se recusaram a comparecer a audiências judiciais.No dia 26, Valéria encontrou-se de novo com Moringa, quando recebeu uma nova missão: retransmitir aos integrantes do PCC a ordem para a execução de cinco agentes penitenciários da P-2 de Venceslau. Essa ordem devia ser repassada a um detento conhecido como Magrelo, que estava no presídio de Flórida Paulista.Valéria afirmou aos promotores que se recusou a dar a ordem para matar os agentes. É na P-2 que estão os principais líderes do PCC. As mortes dos agentes serviria para espalhar o pânico entre os funcionários dos presídios e obter o afrouxamento da disciplina - desde que forma para lá em maio, os chefes da facção são vigiados por homens armados no banho de sol e nas visitas.A outra advogada presa, Libânia Catarina Fernandes Costa, disse que recebeu instrução de Macarrão no dia 14 para servir de pombo-correio entre ele e Marcos Camacho, o Marcola, líder máximo da facção que está detido no Centro de Readaptação Penitenciária (CRP), em Presidente Bernardes. As ordens de Marcola seriam repassadas à advogada pelo preso Luis Henrique Fernandes, o LH, também detido no CRP.Libânia foi orientada a passara ao preso Cláudio Rolin de Carvalho, o Palaco, a ordem para "colocar no chão" as penitenciárias de Araraquara, e Itirapina 2. No dia seguinte, quando receberam a ordem, os presos dessas unidades e de Mirandópolis se rebelaram. A tropa de Choque foi chamada para retomar as três prisões e libertar 19 agentes feitos reféns. O prejuízo para o Estado foi de R$ 27 milhões.Além das advogadas também foi preso o advogado Eduardo Diamante. Ele, Macarrão, Moringa e Poloca foram denunciados por formação de quadrilha, motim de presos, dano ao patrimônio e cárcere privado. O Gaeco pediu ainda eles respondam ao processo presos.

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