Faculdade revive lenda das cabeças trocadas

São Francisco vai reinaugurar busto de Álvares de Azevedo, já confundido com o de Fagundes Varela; campanha deve permitir homenagens tardias

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

Na história da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, fundada em 1827 em São Paulo, não faltam literatos nem lendas. Essa dicotomia estará, por um capricho do destino, entrelaçada no dia 29: está prevista a reinauguração do busto do poeta Álvares de Azevedo (1831- 1852), todo restaurado. Tudo começou no início do século passado, quando um grupo de estudantes franciscanos decidiu eleger três grandes poetas que estudaram ali e homenageá-los com bustos de bronze. Mereceriam a honraria Azevedo, Castro Alves (1857-1881) e Fagundes Varela (1841-1875). Campanhas foram organizadas para bancar a iniciativa - houve até uma palestra sobre Castro Alves proferida pelo escritor e jornalista Euclides da Cunha (1866-1909). O dinheiro, entretanto, só foi suficiente para o primeiro busto, o de Azevedo. Quando ficou pronto, em 1907, a faculdade decidiu doá-lo à cidade. Acabou instalado na Praça da República. No final da década de 30, era ali que uma jovem estudante - que anos mais tarde viria a se tornar a célebre escritora Lygia Fagundes Telles - costumava se entreter lendo poesia. "Eu era mocinha e estudava no (colégio) Caetano de Campos", conta. "Então percebi que a cabeça do Álvares de Azevedo era, na verdade, a do Fagundes Varela. Coisas do Brasil... Trocaram as cabeças." Mais tarde, quando ela se tornou estudante do Largo São Francisco, espalhou a sua suspeita. Tornou-se mais uma lenda incorporada à instituição. "Acho muito difícil que tenha havido um engano, mas nós gostamos dessas histórias", diz o presidente da Associação de Antigos Alunos, José Carlos Madia Souza. Ainda hoje há alunos que acreditam que houve a tal troca. Há duas semanas, ao discursar na Academia Paulista de Letras, da qual é membro, Lygia contou a história, pedindo para que a "cabeça certa" finalmente seja posta no busto. Desde 2006 a estátua não fica mais na Praça da República. Durante a Virada Cultural daquele ano, integrantes do Centro Acadêmico XI de Agosto literalmente a arrancaram da praça e levaram para o Largo São Francisco. Foi o ápice da campanha "Volta, Álvares", iniciada no ano anterior. Os R$ 30 mil necessários à restauração do busto foram levantados, no início deste ano, graças a uma parceria entre a Associação de Antigos Alunos e o escritório de advocacia Machado, Meyer, Sendacz e Ópic. Agora os ex-estudantes e os integrantes do Centro Acadêmico querem concluir a obra dos seus "antepassados": com um livro contendo a palestra completa sobre Castro Alves proferida por Euclides da Cunha, que deve ser lançado em agosto, começam a arrecadar fundos para a construção dos dois outros bustos. Estima-se que cada um custe R$ 60 mil.

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