'Fala da presidente não é, ainda, uma virada'

ENTREVISTA

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2010 | 00h00

Reginaldo Nasser, PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA PUC - SP

Não se pode dizer, ainda, que a opinião da presidente eleita Dilma Rousseff contra as violações de direitos humanos pelo Irã, revelada ao jornal The Washington Post, prenuncie uma nova política de Estado sobre a questão. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Reginaldo Nasser, da PUC-SP, estudioso do Oriente Médio e de temas como segurança internacional e terrorismo.

"A presidente falou em termos pessoais e sobre um caso específico, da iraniana Sakineh Ashtiani. A frase vale como uma crítica à posição anterior do Itamaraty", ressalta Nasser. "Mas, para ser uma reavaliação da posição sobre direitos humanos, deveria ter falado de Cuba, por exemplo. E ela não o fez." Nesta entrevista, ele admite, porém, que foi uma postura pessoal da presidente em um tema importante, que a afastou do que tem sido feito até agora.

Que lhe pareceu a posição manifestada por Dilma Rousseff sobre as relações com o Irã?

Não dá pra dizer, ainda, que representa uma virada. Ela falou de um episódio particular e o vinculou à questão de gênero.

Mas não é um impulso pessoal que pode levar a outro caminho? Ficar contra o apedrejamento de Sakineh é pouco. Ela menciona "práticas medievais", mas cabe perguntar: se fosse uma prática mais recente, a cadeira elétrica, poderia? E se fosse contra homens, tudo bem? O essencial é o processo pelo qual ela foi julgada e condenada. Há centenas de mulheres em situação parecida no Iraque, no Egito. Nesse sentido, o presidente Lula me pareceu mais coerente ao alegar que cada país tem suas leis e que ele não ia se meter.

Mas há uma novidade, a crítica ao que faz o Itamaraty.

Num momento em que o ministro Celso Amorim começa a ser encostado, parece, de fato, uma crítica ao modo com o Itamaraty tem agido. Será que vai mudar? Na diplomacia ela formará um trio com Marco Aurélio Garcia - a continuidade de uma estratégia - e com o futuro chanceler Antonio Patriota - cria de Amorim. Mas ela não fará, nesse trio, o papel que era de Lula. Ela não tem a mesma liderança.

O debate por trás disso é sobre intervencionismo. Qual devia ser, aí, a estratégia do Brasil?

Esse é um tema nem sempre claro, e no Brasil ele continua à espera de um bom debate. Há uma posição realista, em que um Estado não diz que concorda nem que discorda - ele só informa que não vai comentar e isso não é apoiar. No outro extremo está o intervencionismo, Nossa diplomacia ainda é, em grande parte, de ordem pessoal.

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