Fala dos eleitores revela o que estatística não mostra

Uma das modalidades de pesquisa usada tanto em campanhas políticas quanto em sondagens de mercado é conhecida por "qualitativa": os pesquisadores reúnem grupos de pessoas com algo em comum numa sala e estimulam debates sobre temas que lhes interessam. Não se pode extrapolar os resultados estatisticamente, nem extrair porcentagens. Mas as frases e ideias que surgem dessas discussões ilustram a percepção que cada segmento social tem de um determinado produto, campanha, candidato, projeto de governo, ou temas mais genéricos como educação, saúde, segurança. Não raramente, frases soltas nessas pesquisas acabam se transformando em slogans publicitários, em motes de campanha, em bordões de propaganda.

Análise: José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

As reportagens de Lourival Sant"Anna usaram uma técnica semelhante. Ele reuniu grupos com características semelhantes e discutiu com eles temas relativos à eleição: o governo Lula, o Bolsa Família, impostos, o serviço público de saúde, a escola, a aposentadoria, o desemprego. Com uma vantagem: o repórter foi até os eleitores e os entrevistou em seus ambientes. Isso rendeu aos relatos uma espontaneidade rara nos grupos de pesquisa tradicionais. A interação com o entorno complementou as falas com elementos de observação do repórter. A narrativa ficou mais rica.

Diferentemente das pesquisas qualitativas, nas reportagens os personagens têm nome, endereço, personalidade. Contam suas vidas e revelam detalhes de seus dramas pessoais que não se ouvem nas "qualitativas", porque o código de ética das pesquisas preserva o anonimato dos entrevistados.

Das reportagens emergem explicações vívidas para os porcentuais frios das pesquisas quantitativas. A maioria dos entrevistados aprova o governo Lula. Mas os matizes dos discursos revelam diferenças transatlânticas entre o que é um "bom" governo para quem mora no Morro do Alemão e para os "alemães" que vivem em Rio do Sul (SC).

Uns são afetados diretamente por obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e têm reações distintas sobre o impacto que a urbanização da favela terá em suas vidas. Outros continuam com as mesmas reclamações de décadas sobre a falta de garantia de preço mínimo para o que produzem na lavoura. Em vez de elogio, fazem no máximo uma concessão contrariada: "Não podemos dizer que esse governo foi ruim".

É no Sul que Lula tem sua nota média mais baixa: 7,3, segundo o Datafolha. Visto isoladamente, o número é alto, mas embute muitos eleitores que, embora admitam méritos, têm uma lista de críticas ao governo e não estão especialmente predispostos a votar na sua candidata à sucessão do presidente.

O que a combinação dos relatos com as estatísticas parece revelar é que, como o parâmetro de comparação é muito baixo, um mínimo de programas com impacto positivo é suficiente para produzir índices de aprovação desproporcionalmente altos.

Os mais entusiasmados com a atual administração federal são os sertanejos. Mas não pelos programas que, a distância, costuma-se apontar como causa dos 85% de aprovação que o governo Lula tem no Nordeste. O salário mínimo, que recebeu reajustes consecutivos acima da inflação, parece carrear mais popularidade do que o Bolsa Família.

Em nenhuma outra região brasileira Lula recebe 48% de nota 10 pelo seu governo. A julgar pelos relatos, isso parece ser efeito do conjunto de políticas que atingiram o Nordeste, e não de um programa específico. A percepção dos beneficiários é que tiveram um progresso duradouro.

A intensidade na aprovação do governo faz muita diferença nas urnas. Na média, os eleitores de Dilma Rousseff (PT) avaliam o governo Lula com nota 8,8. Embora mais baixa, a nota média dada pelos eleitores de José Serra (PSDB) também é alta: 7,4. O que diferencia um eleitorado do outro é a composição dessas notas.

Dilma tem quase o dobro dos votos de Serra entre os 47% de eleitores que dão notas 9 e 10 ao governo. Serra vence na proporção de 3 para 1 no terço dos eleitores que dá nota 7 ou inferior a Lula. A disputa é pelos 20% que avaliam o governo com nota 8. Hoje, os dois estão tecnicamente empatados também nesse segmento. Por isso, é indispensável aos candidatos compreender as nuances da avaliação do governo.

É o que este conjunto de reportagens permite vislumbrar, através das diferentes falas dos grupos mais diversos: dos sertanejos paraibanos até os moradores da periferia das metrópoles, passando pelos emergentes da "Califórnia" brasileira e pelos pequenos agricultores catarinenses.

É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM REPORTAGENS COM O USO DE ESTATÍSTICAS

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