Falha em reforma fez teto desabar

Segundo técnicos da USP, uma das 14 tesouras do telhado não tinha reforço metálico que ajudava sustentação

Bruno Tavares e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

13 de maio de 2009 | 00h00

A falta de reforço metálico na estrutura que sustentava o telhado da sede internacional da Igreja Renascer em Cristo, no Cambuci, região central de São Paulo, foi o fator decisivo para o desabamento que deixou nove mulheres mortas e mais de cem feridos em janeiro. O resultado está no exame elaborado por técnicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que será anexado ao laudo final do Instituto de Criminalística (IC), previsto para ser divulgado oficialmente na próxima semana. Das 14 tesouras de madeira que sustentavam o telhado, apenas uma, a que ficava em cima do púlpito, não havia recebido reforço metálico durante a reforma da igreja, entre 1999 e 2000.Essa tesoura, chamada pelos peritos do Núcleo de Engenharia de "T14", ruiu às 18h50 de 18 de janeiro, no momento em que fiéis do culto das 17 horas saíam e outros chegavam para a celebração seguinte, às 19 horas. Ainda não se sabe por que essa estrutura era a única do telhado que não havia recebido um reforço metálico - todas as outras tesouras estavam intactas, uma vez que passaram pelos reparos exigidos pela Promotoria de Habitação e Urbanismo da capital e foram supervisionadas por engenheiros do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).O exame feito pela Poli-USP também mostra que essa mesma tesoura que ficava acima do palco apresentava apodrecimento em uma das extremidades - o que pode ter causado ou facilitado o desabamento. Ao contrário do que se acreditava, o peso dos dutos de ar-condicionado e do sistema de som e luz do templo não foram preponderantes para a tragédia, uma vez que os equipamentos estavam apoiados em uma estrutura auxiliar. Uma das hipóteses ainda estudadas pelos peritos do IC é de que uma reforma no telhado da Renascer no segundo semestre de 2008 - quando 1.600 telhas foram substituídas - possa ter "alterado a dinâmica" da tesoura 14, causando sua deterioração.Contratada pela Renascer por R$ 70 mil para realizar essa troca de telhas, a empresa Etersul Coberturas e Reformas Ltda não tinha licença do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea/SP) para funcionar. A troca do telhado também não foi informada à Prefeitura, como exige a legislação municipal. Assim, os peritos acreditam que algum procedimento durante a reforma possa ter "detonado o processo de deterioração da única tesoura que não estava reforçada metalicamente, justamente a que ficava acima do palco".SABOTAGEMO laudo que apontará as causas do desabamento do teto da Renascer já deveria ter sido concluído, conforme informou inicialmente o perito do Instituto de Criminalística (IC) José Manoel Dias Alves. Mas a hipótese de sabotagem de uma das tesouras, que foi encontrada cortada entre os destroços, teve de ser investigada - soube-se mais tarde que o corte foi feito pelos bombeiros durante o resgate das vítimas. O inquérito aberto pela 1ª Delegacia Seccional (centro) já ouviu quase 140 pessoas - entre vítimas, testemunhas, engenheiros e dirigentes da Igreja - e aguarda apenas a conclusão do laudo do IC. "Os eventuais indiciamentos vão depender do resultado do laudo", disse o seccional Dejar Gomes Neto.A Assessoria de Imprensa da Renascer disse que "quando procurou tomar conhecimento do suposto laudo citado pela reportagem, verificou que ele simplesmente não está pronto. Só será finalizado e divulgado daqui a cerca de 30 dias". Informou ainda que a Igreja e seus advogados não teriam como comentar as conclusões da Poli-USP e "refutam de antemão como incompletas as informações esparsas que venham a ser ofertadas sobre tema de tal relevância e responsabilidade". NÚMEROS1,6 mil telhasforam substituídas na reforma no telhado da Renascer, no ano passado. A obra foi feita por uma empresa não licenciada pelo Crea/SPR$ 70 milforam pagos à empresa que fez a troca das telhas - a reforma não foi informada à Prefeitura, como determina a legislação140 pessoas,aproximadamente, já foram ouvidas no inquérito aberto pela 1.ª Delegacia Seccional

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