Divulgação/Marinha
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Falha em sensor de velocidade pode ter induzido erro de pilotos do voo 447

Para especialista, não se deve culpar copiloto, mas ele pode não ter percebido situação devido à falta de dados

Daniel Gonzales, Estadão.com.br

27 de maio de 2011 | 14h37

SÃO PAULO - Uma falha no sensor de velocidade pode ter induzido o piloto que comandava o A330 da Air France a um erro fatal: elevar o nariz da aeronave, em vez de abaixá-lo para sair de uma situação de perda de sustentação (estol). Para pilotos e especialistas, esse parece ser o cenário mais provável depois da leitura do relatório preliminar de leitura das caixas-pretas, divulgado nesta sexta-feira, 27, pelo escritório de investigações francês (BEA).

 

"Faltam muitos dados para compreender melhor o cenário, mas o mais provável é que tenha sido tomada uma decisão errada", diz um comandante brasileiro de Airbus A320 ouvido pelo Estadão.com.br. "E é incorreto dizer que houve erro do piloto. Ele tomou a atitude com base nos dados que tinha nos displays à sua frente, naquele instante".

 

Para compreender a sequência, a chave é uma manobra citada logo no início do relatório. A aeronave, aparentemente, entrou em estol quando o PF (pilot flying, o que controlava o avião no momento da pane) desconectou o piloto automático e executou uma manobra manual para desviar de um setor de turbulência.

 

A situação de estol ocorre quando a velocidade cai tanto que ocorre uma perda aerodinâmica - o avião simplesmente se torna incapaz de se sustentar no ar e permanecer voando. Em estol, ele tende a cair, como uma pedra. Um alarme soou em seguida, para alertar os pilotos.

 

A recuperação de estol é uma manobra crítica, mas presente em qualquer manual de voo e perfeitamente possível. Deve-se aumentar a velocidade e, assim, trazer a sustentação de volta. Para fazer isso, normalmente a primeira reação do piloto é abaixar o nariz e aplicar potência. No "mergulho", a velocidade sobe. Depois, já com velocidade e sustentação suficientes, nivela-se o avião.

 

O piloto da Air France que estava em comando fez o oposto. Com o piloto automático desconectado, o que ele fez foi acelerar os motores e tomar a iniciativa de elevar o nariz, em diferentes ângulos, em vez de abaixá-lo. E o Airbus permaneceu nessa posição até o fim do voo, tanto que caiu de barriga na água, com o nariz elevado a 16 graus.

 

Por que ele fez isso? "Essa é a pergunta a ser respondida", diz o piloto. De acordo com o comandante brasileiro, a velocidade incorreta ou conflitante mostrada naquele momento - situação citada, também, pelo relatório - pode ter levado o piloto a acreditar que estava voando em overspeed (rápido demais). Nesse caso, seria perfeitamente possível elevar o nariz, mas para diminuir a velocidade e não aumentá-la como necessário para sair do estol.

 

Ou, simplesmente, os dados e a falta de referências externas não foram suficientes para o piloto ter identificado corretamente o estol. "Possivelmente, a formação de gelo nos tubos de pitot deu indicações erradas ou conflitantes de velocidade nos displays ao piloto em comando", analisa. O especialista em prevenção de acidentes aéreos Luiz Alberto Borges Fortes de Athayde, em entrevista à rádio Estadão ESPN, levantou a mesma hipótese.

 

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