Falta de coordenação afeta ajuda às vítimas da chuva

Doações permaneciam entulhadas a céu aberto até a manhã deste domingo; número de mortos já chega a 626

Marcelo Auler - enviado especial de O Estado de S. Paulo,

16 de janeiro de 2011 | 19h07

A falta de organização estava fazendo, até domingo de manhã, com que as doações para as vítimas das chuvas em Teresópolis permanecessem entulhadas a céu aberto e mal protegidas da chuva persistente. Enquanto isto, diversas aeronaves, em especial as cinco do Exército Brasileiro e outras comandadas pela Força Nacional, estavam paradas no campo da Granja Comary, transformado em base aérea das operações de resgate.

 

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Local de treinamentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o campo se transformou em depósito de garrafas de água, comida, material de higiene e roupas que estão sendo doados para as vítimas pela catástrofe. No domingo, a Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil contabilizava 626 mortos. São 283 em Nova Friburgo, 268 em Teresópolis, 56 em Petrópolis e 19 em Sumidouro.

 

Helicópteros parados

 

Para justificar a inoperância dos helicópteros do Exército no domingo, as autoridades militares argumentavam que as péssimas condições meteorológicas impossibilitavam os voos. Mas os helicópteros da Polícia Civil - o Caveirão, modelo Bell Huey II, e o menor Esquilo - assim como o Esquilo do Corpo de Bombeiros voaram à vontade, ignorando a chuva que caiu ontem de manhã.

 

Comandado pelo experiente piloto Adonis Oliveira, da tropa de elite da Polícia, o Caveirão fez dois voos levando mantimentos para pessoas isoladas nas localidades de Santa Rita e Santana, transportando médico, enfermeiros e remédios e resgatando idosos. No início da tarde partiu para mais uma missão: carregado de comida, água mineral, remédios e óleo diesel para fazer funcionar geradores, foi em direção a localidade de Cruzeiro, passando por Santa Rita, onde a médica Julia Gama, que desde quinta-feira ajuda a socorrer os moradores, embarcaria para ver as necessidades do outro povoado.

 

Foi no Caveirão que os policiais do Core (Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil do Rio) resgataram em Santa Rita a dona de casa Nadir de Melo, de 74 anos. Ela estava desabrigada depois que a sua casa, "em cima da laje da minha filha", foi interditada por ameaçar ruir. "Tá tudo direitinho, só falam que tem perigo porque está desbarrancando embaixo", explicou, contrariada por ter sido retirada de casa.

 

Enquanto isto, das cinco aeronaves do Exército - quatro Panteras e um Esquilo - duas só alçaram voo no início da tarde, levando junto o médico do Core, inspetor Leandro Castro, em direção à Vila Salamaco, onde resgataram uma moça doente mental, de quem os socorristas não tinham nem o nome. Ela estava com fratura da cabeça do fêmur.

 

Os próprios soldados que estavam na Granja Comary comentavam entre si o absurdo dos helicópteros permanecerem parados. Segundo um dos recrutas, uma das aeronaves grandes estava há dois dias sem voar, com toda a sua tripulação à disposição. Quem também reclamava muito era o engenheiro Antônio José Fusco, de 42 anos, morador na Granja Comary, que desde quarta-feira estava ajudando a descarregar as aeronaves do Core e dos Bombeiros com os resgatados e a colocar as doações. "É inacreditável ver estes helicópteros parados com tanta coisa para carregar", reclamou.

 

Assim como o empresário da área de navegação, Paulo César Rodrigues, de 58 anos, que durante dois dias pilotou sua camionete Nissan transportando os víveres para as proximidades dos helicópteros e não entendia o porque de o material não ser levado a quem necessita.

 

O helicóptero Esquilo, segundo informou o Capitão Eric Lessa, até tentou ajudar o pessoal da Cruz Vermelha mapeando estradas e descobrindo comunidades isoladas, mas a missão não foi concluída por conta do mal tempo.

 

Resgates

 

No domingo o Exército disponibilizou um telefone (21) 2742-7351 e um endereço eletrônico - copserraeb@gmail.com - para quem souber de vítimas atingidas pelas chuvas em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo em áreas isoladas e que precisam de apoio aéreo para socorro.

 

Na contabilidade do capitão Eric, no sábado, as aeronaves do Exército resgataram 65 pessoas e transportaram 700 litros de água potável, 200 litros de combustível para gerador, 200 litros de leite, vinte cestas básicas e 30 quentinhas para as localidades de Santa Rita, Arrieiro e Hollyday Clube. No domingo de manhã o helicóptero voltou a Holliday onde resgatou o ex-reitor da Universidade Federal Fluminense, Jorge Emanuel Ferreira Barbosa , de 85 anos e sua mulher, a professora de Filosofia Evangelina de Miranda, de 68 anos.

 

A Polícia Militar de São Paulo mandou dois helicópteros com dez tripulantes para ajudar nos resgates. O mesmo aconteceu com a PM do Paraná e de Mato Grosso, atendendo ao pedido da Força Nacional que conta com o seu próprio helicóptero e um do Ibama. Além destes, há os dois da Polícia Civil do Rio, dois do Corpo de Bombeiros e defesa Civil e os cinco do Exército. A pedido do governo do Estado, a Petrobrás está fornecendo o combustível para a aviação.

 

A CBF, além de emprestar parte da área do seu campo, cujo gramado está sendo devastado, improvisou na sala de imprensa da Granja Comary um dormitório que abriga as tripulações das aeronaves e alguns grupos de voluntários. Ela também está doando as refeições para todo este pessoal. "Independentemente desta ajuda, e estamos doando três carretas de alimentos", informou Patrícia Montenegro, mulher do coronel Almeida, administrador do centro de treinamento.

 

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