Falta de creche põe violência em 2º plano

Mulher com filhos tem 10 vezes mais dificuldade para conseguir emprego

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 00h00

Atuando há 35 anos em São Paulo, a agência Prendas Domésticas conta com o cadastro de cerca de 100 mil mulheres dispostas a trabalhar como empregadas e babás em casas de bairros ricos, como Morumbi, Alto de Pinheiros e Cidade Jardim. As contratadas vêm dos bairros periféricos de São Paulo, que oferecem poucas vagas em creche, trabalhar nos bairros ricos, com oferta mais abundante. "Na hora de escolher a babá ou empregada, em 99% dos casos, exige-se que a funcionária não tenha filhos ou eles sejam crescidos. Como faltam vagas em creche, o filho da empregada pode transformar-se num problema", diz Eliana de Oliveira, supervisora da agência. A falta de vagas em creches tornou-se hoje a principal batalha dos conselheiros tutelares em São Paulo. Cabe a eles resguardar o direito de crianças e adolescentes. Entre os 864 mil casos de violação registrados no País , 48% estão relacionados à violência dentro de casa ou na vizinhança. Só 20% da demanda se refere a problemas de educação e cultura. Na cidade de São Paulo, a proporção se inverte. Das 21.361 violações registradas, 44% estão ligadas à falta de vagas em creches e problemas educacionais e 38% à violência doméstica e na vizinhança. Os dados são do Sistema Nacional de Informação para a Criança e a Adolescência."Dos 300 casos que atendemos em junho, pelo menos 100 estavam relacionados a falta de vagas em creche e problemas escolares", afirma Alex Ferreira de Carvalho, conselheiro do Jardim São Luís, bairro pobre da zona sul da capital. Num sábado chuvoso de setembro, Carvalho acompanhava o movimento de cerca de 50 mães e jovens que se reuniam na Casa dos Meninos com a lista com nome e endereço de 205 crianças de até 3 anos da região que aguardavam a oportunidade de garantir uma vaga na creche. No encontro, juntamente com os conselheiros, as mães queriam entrar com uma ação no Ministério Público Estadual, cobrando da Prefeitura a oferta de vagas. "Tive de colocar meu filho em uma creche particular para não deixar o trabalho", diz Joana Marcelina Soares Ramos, moradora do Jardim São Luís. Ela pagava R$ 95 mensais, além de R$ 60 em transporte, valor que consumia grande parte do salário de R$ 500 que conseguia juntar como vendedora de bijuterias nos arredores da Igreja de São Judas.A violência doméstica contra a criança e o adolescente, como resultado, acaba ficando em segundo plano. "Isso é grave, um sério problema social que precisa de toda a atenção", diz a presidente do CMDCA, Elaine Macena Ramos.EMPREGOSSegundo a Prendas Domésticas, uma mulher com filhos pequenos tem dez vezes mais dificuldades para obter emprego. A babá Marinilda Casado de Lima, de 38 anos, está há um ano sem trabalhar. O problema começou depois do nascimento do filho, hoje com um ano e meio. "Nunca imaginei que passaria por isso. Antes de ter o filho, quando saía de um emprego tinha outro no dia seguinte."Em uma entrevista, chegou a ouvir que devia ter pensado duas vezes antes de ter um filho. Sem conseguir vaga em creche, paga R$ 280 por mês em uma escola privada. "Preciso trabalhar. É a única maneira que tenho para sustentar-me e ao meu filho."

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