Falta de enterro angustia famílias

Até a noite de ontem, apenas 30% dos corpos tinham sido identificados

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

24 Julho 2007 | 00h00

"É uma angústia e dor que não tem tamanho não saber quando você vai recuperar o seu ente querido", diz a empresária Elisiê Pedrosa, que perdeu o filho Gabriel, de 26 anos, no acidente com o vôo 3054 da TAM, há uma semana. No dia em que se celebra a missa de 7º dia da morte das vítimas, mais de dois terços dos familiares ainda não puderam realizar o enterro dos parentes perdidos na tragédia. Até a noite de ontem, apenas 66, ou 30%, dos 199 corpos tinham sido identificados. A espera pela identificação só aumenta o sofrimento e a angústia dos familiares. "A presença do corpo ou mesmo a recuperação dos pertences da pessoa morta é importante porque faz com que a realidade tome forma. Sem isso, parece que não aconteceu. A pessoa vive como num sonho e tanto a aceitação da morte quanto retomar a vida ficam mais difíceis", explica a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, que coordena a equipe de atendimento aos familiares das vítimas. São 31 psicólogos que se revezam nos hotéis onde estão hospedados, cemitérios, aeroportos e, quando solicitados, na casa dos parentes. Maria Helena é professora e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenção sobre o Luto da PUC de São Paulo e fundadora do grupo Quatro Estações, que tem uma equipe para intervenções psicológicas em emergências. O mesmo grupo atuou no atendimento às vítimas do acidente da Gol, há dez meses. "Infelizmente, esses acidentes estão se tornando uma rotina para nós." Ela explica que a realização dos rituais de passagem, existentes em qualquer cultura, como o velório, o enterro e a missa de 7º dia, são importantes no processo do luto. "A ausência do corpo é muito aflitiva para as famílias." No caso do acidente com o avião da TAM, os corpos sem possibilidade de reconhecimento serão identificados por um exame de DNA. Amostras de sangue foram coletadas dos familiares das vítimas no sábado. Mas este será o último recurso, e a identificação pode demorar até um mês. "Ao comprar a passagem, nós fizemos um contrato com a TAM para trazer nossos familiares com segurança a São Paulo. E o que temos? Nada, nem os corpos", diz Elisiê. Ela queria voltar a Manaus para celebrar com a família uma missa pelo 7º dia da morte do filho. Mas, sem o corpo, a sensação é de estar deixando para trás o próprio filho. "Vim a São Paulo buscar meu filho. Imagina o que é para uma mãe saber que ele está lá como um objeto, num saco, dentro de um caminhão frigorífico. Perdemos nossos filhos, e isso nada vai mudar. Mas, pelos menos, queremos ter o conforto de levar de volta os restos. É muito triste o que estamos vivendo." Geraldo Silva, de 48 anos, pai de Janus Lucas Leite Silva, de 26 anos, morto no acidente, queria "levar o filho de volta para a mãe". Lucas, que viajava pela empresa, estava com casamento marcado para setembro de 2008 e já procurava apartamento para morar com a noiva Carla, em Salvador, onde vive a família. "A gente se sente desamparado pelo País", diz Geraldo, segurando um cartaz feito por colegas de Lucas, onde se lê: "Vamos guardar em nossos corações a imagem do sorriso, do jovem sonhador e idealista". Enquanto esperam, os familiares materializam os filhos, irmãos, pais e mães mortos no acidente em fotos, cartazes e nas roupas. "Mas não saio daqui sem o corpo da minha filha", diz José Carlos Dornelles, vestindo uma camiseta com o rosto da filha Eliane Dornelles, de 33 anos. Os dois viviam em Porto Alegre. Dornelles viajou a São Paulo mais cedo. Minutos antes de Eliane embarcar, ela ligou para José Carlos. "Pai, me espera no aeroporto que eu estou chegando." Dornelles aguardava a filha em Congonhas quando viu o vôo da TAM explodir contra o prédio. "Eu sabia que minha filha estava ali dentro quando vi o avião incendiando." Ildecler Ponce de Leon, que também estava em Congonhas quando o avião que trazia a sua mulher, Jamille, de 21 anos, e o filho Levy, de apenas 1 ano e 8 meses, explodiu contra o prédio da TAM, disse que o IML está "tratando os corpos como entulhos". "Só quero que o governo se sensibilize. Nem os pertences da minha amada e do meu filhinho foram encontrados." Os dois viajavam de Porto Alegre a Manaus, com escala em São Paulo. Ildecler viajou mais cedo, em um vôo da Gol, e estava na pista de Congonhas, embarcando para Manaus, quando viu o avião da TAM pousar em alta velocidade. "Me transportei para São Paulo, transtornado, para achar os restos da minha filha", disse o médico Maurício Pereira, que perdeu a filha Mariana Simonete, de 22 anos, que estava no primeiro ano de medicina em Porto Alegre. Há dois dias, alguns familiares, entre eles Maurício, foram chamados ao IML. "Tivemos, nós mesmos, que remexer nos sacos com os pertences das vítimas. Você sabe o que é isso para um pai?" Entre os sacos, encontraram a carta de uma passageira agradecendo à tia pela passagem da TAM e um frasco de remédio manipulado com o nome de outra passageira. "Por que esses pertences ainda não tinham sido entregues. Por que falta pessoal? Também levaram até sexta-feira para dizer que não havia tomógrafo, um aparelho simples, no IML." Alguns familiares, que têm a informação de que seus parentes ocupavam assentos na frente da aeronave, estão pedindo à TAM e às autoridades um atestado para que possam fazer um funeral simbólico pelas vítimas, já que, nesse caso, a identificação dos corpos será mais difícil. Chorando muito, o professor Dario Scott, que perdeu a filha, Mariana, de 14 anos, disse ter consciência da dificuldade dos legistas em identificar o corpo da filha. "Ela estava no assento 9B. Eu sei quanto será difícil encontrar partes do que sobrou da minha filha, minha filhinha querida, de 14 anos, que viajava com a amiguinha para conhecer São Paulo e agora não vai mais voltar para casa." Ele acusa a TAM de omitir informações. "Se eles têm a lista, porque não revelam às famílias a localização dos passageiros no vôo? Só para aumentar a angústia?" Dario sabia qual o assento da filha porque fez a reserva do vôo pessoalmente. "Imagina o que é para uma mãe saber que ele (filho) está lá, como objeto, num saco, num caminhão frigorífico" Elisiê Pedrosa mãe de Gabriel, de 26 anos

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