Falta de proximidade pode ter levado à fuga de fiéis, diz Francisco

Em entrevista ao 'Fantástico', ele contou que no conclave foram discutidos escândalos da Igreja, como o vatileaks

O Estado de S. Paulo

29 Julho 2013 | 00h00

O papa Francisco disse em entrevista que foi ao ar na noite desse domingo, 28, no Fantástico, da Rede Globo, que a falta de proximidade com seus discípulos pode ter causado o enfraquecimento da Igreja no Brasil e na América Latina. Em meia hora de entrevista, o pontífice respondeu também sobre manifestações no Brasil e no mundo, comentou escândalos do Vaticano revelados pelo vazamento de documentos secretos (no episódio conhecido como Vatileaks) e expôs um pouco dos bastidores da sua própria eleição, em março.

"A Igreja é como uma mãe. Nem eu nem você conhecemos uma mãe que age por correspondência." Para o pontífice, faltam sacerdotes, especialmente em locais mais isolados, e os cristãos recorrem a pastores protestantes. "As pessoas precisam do Evangelho e vão ouvir um pastor que os dê atenção."

Francisco disse que os problemas atuais da Igreja ajudaram a pautar a escolha do pontífice, em especial nas reuniões anteriores ao Conclave, as Congregações Gerais. "Naquela ocasião falamos claramente sobre problemas da Igreja, para deixar clara a realidade e traçar o perfil do próximo papa. Havia problemas de escândalos, mas também se falou de certas reformas funcionais necessárias."

Nas reuniões ficou decidido que quem quer que fosse o próximo líder da Igreja criaria uma comissão para revisar a administração do Vaticano. "Um mês depois da minha eleição nomeei a comissão, com oito cardeais. As primeiras reuniões serão nos dias 1, 2 e 3 de outubro."

O pontífice defendeu a atuação da Cúria. "A Cúria sempre foi criticada. Mas lá há muitos santos, gente de Deus que gosta da Igreja." O papa citou um provérbio para explicar o foco nos escândalos: "Faz mais barulho uma árvore que cai que um bosque que cresce". Sobre o monsenhor Nunzio Scarano, alto funcionário do Vaticano acusado de lavagem de dinheiro, Francisco disse que "é preciso reconhecer que ele agiu mal e vai ter a punição que merece".

Manifestações. Francisco disse não saber o motivo específico do descontentamento que motiva protestos dos jovens no Brasil, mas, para ele, essa geração deve ser ouvida. "Devemos dar lugar para os jovens se expressarem e cuidar para que não sejam manipulados." E ainda deu seu apoio: "Um jovem que não protesta não me agrada".

Carro. Questionado sobre o carro sem nenhum luxo com o qual se deslocou durante a agenda, um Fiat Idea prata, comercializado também no Brasil, o papa defendeu que os sacerdotes sejam exemplos de simplicidade e disse que opulência ofende os fiéis. "O carro que uso aqui é muito parecido com o que estou usando em Roma: simples, que um empregado normal pode ter. Sinto que temos que dar testemunho de certa simplicidade. E ouso dizer, pobreza. Nosso povo exige pobreza dos sacerdotes", defendeu."Nosso povo fica com o coração muito ofendido quando vê que nós, que estamos consagrados, estamos apegados ao dinheiro".

Segurança. Questionado sobre a segurança durante a Jornada, criticada por diversos especialistas, o pontífice disse que não se sentiu ameaçado em nenhum momento e agradeceu os esforças das equipes do Brasil e do Vaticano em protegê-lo. Francisco falou sobre o hábito de deixar o vidro aberto durante os deslocamentos com carro convencional, bem como da falta de vidros laterais e de blindagem em seu papamóvel. "Eu não sinto medo, sou inconsciente. Sei que ninguém morre na véspera", brincou. "Eu não poderia ver esse povo que tem um grande coração em uma caixa de vidro", disse. "Vim visitar gente. Quero tratá-las (as pessoas) como gente: tocá-las"

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